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:: Sexta-feira, 25 de Abril de 2014 ::
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    História da Arquitetura

    Arte útil por excelência, a arquitetura é, de todas as criações do homem, a que revela de maneira mais profunda a evolução das sociedades ao longo de sua história. O fato de ser uma arte e também ciência aplicada levou a noção de arquitetura a incluir concepções muito diversas. São freqüentes as críticas dos profissionais do setor ao ensino da arquitetura como uma disciplina puramente "artística", integrada a um estudo geral dos diversos estilos, sem levar em conta os problemas formais e técnicos que originaram diferentes soluções. Esse tipo de educação gerou a idéia de que existe uma "grande arquitetura", analisada em textos e manuais, e uma outra, própria da grande massa, sem nenhuma pretensão estética. No final do século XIX, o britânico William Morris rebelou-se contra essas noções, defendendo que não se podia deixar a criação nas mãos de um grupo reduzido de especialistas. Para ele, a própria sociedade devia estar envolvida nos processos arquitetônicos.

    Para compreender a gênese da arquitetura, cabe atentar para três fatores determinantes: as possibilidades que em dado momento as técnicas e materiais propiciam; as necessidades a que um edifício concreto atende; e as concepções artísticas predominantes. São, portanto, três elementos sincrônicos - técnico, social e estético - cuja inter-relação ao longo dos séculos marcou os diferentes períodos arquitetônicos. Seu estudo constitui a base do desenvolvimento histórico examinado neste artigo.

    Antiguidade

    Civilizações norte-africanas e orientais. O aparecimento das primeiras civilizações em torno dos grandes rios - Nilo, Tigre, Eufrates e Indo - trouxe consigo o desenvolvimento das técnicas arquitetônicas básicas.

    Egito. Embora as origens do neolítico no Egito remontem ao começo do quinto milênio antes da era cristã, só após a unificação realizada pelo rei Menes em 3100 a.C., a arquitetura evoluiu. Os materiais básicos foram o adobe - pequeno bloco semelhante ao tijolo, preparado com argila crua, secada ao sol -, usado nas construções urbanas, e a pedra, com que se edificavam tumbas e templos.

    No antigo império, entre 2700 a.C. e 2200 a.C., as construções mais importantes eram os monumentos fúnebres, no princípio simples mastabas, túmulos retangulares de tijolos que depois serviram de sepultura aos nobres e funcionários da corte. Para o sepulcro dos faraós, ergueram-se as colossais pirâmides. A mais antiga preservada é a do rei Zoser, erigida pelo grande arquiteto Imhotep por volta de 2700 a.C. Trata-se de uma pirâmide de degraus, concebida como uma superposição de mastabas. No século seguinte, os faraós da quarta dinastia mandaram construir pirâmides no pequeno planalto de Gizé, que passaram à história com o nome helenizado daqueles monarcas: Quéops, Quéfren e Miquerinos. Compunham-se de blocos de pedra desbastada, revestidos por uma camada de calcário. No interior do edifício encontrava-se um complicado labirinto para impedir o acesso de saqueadores à câmara funerária que abrigava a múmia do faraó e seus tesouros. À volta das pirâmides havia grandes estátuas - como a célebre esfinge - e um conjunto arquitetônico que incluía o templo.

    Os faraós tebanos do novo império (1567-1085 a.C.), preferiram escavar na rocha suas tumbas - chamadas hipogeus - a fim de torná-las mais seguras. Os templos converteram-se nas edificações principais e assumiram proporções grandiosas em lugares próximos a Tebas, como Karnak e Lúxor. O conjunto constava de uma imensa avenida, flanqueada por estátuas e obeliscos, que acabava em uma porta monumental com duas grandes torres. Vinha depois uma galeria de colunas, denominada peristilo, seguida pelas salas hipostilas dos sacerdotes, sustentadas por colunas, e por último o santuário. Entre os templos divinos escavados na rocha, o mais célebre é o de Abu Simbel, que Ramsés II mandou erigir.

    O sistema de construção era o arquitravado: grandes lajes de pedra, que constituíam a arquitrave, dispunham-se horizontalmente sobre os elementos de sustentação, pilares ou colunas. Em sua forma básica, esses traços arquitetônicos mantiveram-se até a decadência da civilização egípcia.

    Mesopotâmia e Irã. É provável que tenha sido a Anatólia a região onde primeiro se desenvolveram as estruturas arquitetônicas. Jericó, às margens do rio Jordão, já possuía um cinturão defensivo de muralhas por volta de 6000 a.C. No quarto milênio, os sumérios teriam aperfeiçoado os fundamentos técnicos em que se baseariam as grandes civilizações mesopotâmicas.

    Os povos da Mesopotâmia, região entre os rios Tigre e Eufrates, empregaram sobretudo o tijolo - cozido ou secado ao sol - pois a pedra ali era escassa. Isso lhes permitiu utilizar o arco e a abóbada, elementos arquitetônicos que seriam recuperados e transmitidos ao Ocidente pelos romanos. Embora entre os monumentos mais conhecidos dessas culturas se encontrem os zigurates - templos altíssimos em forma de torre piramidal, com a base progressivamente mais reduzida -, foi na arquitetura urbana que sua arte atingiu o apogeu. Nos tempos de Hamurabi (cerca de 1750 a.C.), as cidades babilônicas eram cercadas por muralhas que se estruturavam em diversos níveis, mediante terraços cultivados - os notáveis jardins suspensos.

    A edificação de palácios atingiu sua culminância com o erigido em Jorsabad pelo rei assírio Sargão II, no século VIII a.C. Escavações mostraram que o recinto abarcava mais de dez hectares, incluindo-se o palácio, templos e outras construções, bem como estátuas decorativas, entre as quais os monumentais touros alados com feições humanas que adornavam as portas do palácio e que se conservaram quase intactos.

    A extensão do império persa à Mesopotâmia a partir do século VI a.C. não proporcionou grandes inovações arquitetônicas. As ruínas dos palácios de Persépolis e Susa revelam o conhecimento que os persas possuíam das técnicas babilônicas e egípcias e também seu domínio da coluna, do arco e da abóbada. O fato, porém, de que antes de empregar o tijolo e a pedra houvessem usado a madeira deu a suas construções maior leveza que a das civilizações precedentes.

    Índia, China e Japão. Das três culturas clássicas do Extremo Oriente, foi a Índia a primeira a alcançar alto grau de desenvolvimento em arquitetura, conforme revelam as ruínas de Mohenjo-Daro (2500-1500 a.C.), centro da antiga civilização do Indo, berço do Paquistão. No período budista, que se desenvolveu aproximadamente a partir do século III a.C., eram freqüentes as estupas, monumentos semi-esféricos de caráter religioso, que em Sanchi (século III a.C.), chegaram a alcançar 36m de altura; os viharas ou mosteiros; e os chaityas, santuários escavados na rocha durante séculos, como as célebres cavernas de Ajanta, iniciadas no século II a.C. A partir do século V o culto budista começou a ser substituído pelo bramânico e construíram-se templos de adobe e pedra talhada, ornamentados e esculpidos em toda a superfície externa, como o conjunto de edifícios religiosos de Hoysalesvara em Halebid. Da fusão da arte muçulmana com a autóctone surgiram construções de singular beleza, como o célebre Taj Mahal (século XVII), em Agra.

    Os vestígios arquitetônicos chineses mais antigos remontam ao final do segundo milênio antes da era cristã. Nos últimos anos do século III a.C. começou a construção da grande muralha defensiva contra os povos do norte, em pedra, material reservado para este tipo de edificações, pois a arquitetura chinesa empregava sobretudo a madeira e o tijolo. A introdução do budismo no século I da era cristã deu origem à criação do templo chinês, o pagode. O mais antigo conservado, de tijolos, é o de Song Yue (século VI). O modelo clássico, porém, consistia em uma fina estrutura vertical de madeira que sustentava um teto tipicamente arqueado para cima. O conjunto monumental da Cidade Proibida de Pequim (Beijing), levantada no século XVII e reconstruída nos séculos XVII e XVIII, representou o auge e a síntese da arte chinesa.

    O desenvolvimento da cultura japonesa foi mais lento, embora no século V a.C., já se levantassem os templos xintoístas de Ize, que, edificados em madeira de pinho, chegaram à atualidade graças a reconstruções posteriores. A adoção oficial do budismo integrou a arquitetura japonesa na cultura da China. O pagode de Todai-ji, em Nara, é uma das maiores estruturas de madeira do mundo. O auge do zen-budismo, com sua concepção de arquitetura integrada à paisagem, encontrou sua mais perfeita expressão no Rokuon Ji, de Quioto. Aos poucos, os arquitetos japoneses desenvolveram interesse particular pela adequação do edifício a suas autênticas funções, como ficou patente no palácio rural de Katsura (século XVII), de linhas estruturais muito simples.

    Arquitetura européia pré-helênica. A preeminência da cultura grega no desenvolvimento das técnicas de construção ocidentais levou a designar-se como "arquitetura pré-helênica" os diversos estilos arquitetônicos surgidos na Europa antes do apogeu da Grécia.

    Europa ocidental. A partir do quarto milênio antes da era cristã disseminou-se na Europa a chamada cultura megalítica, cujo nome provém de seus monumentos fúnebres e religiosos, os megálitos. Entre os mais característicos achavam-se os menires - enormes blocos verticais de pedra -, que em lugares como Carnac, na França, ao longo de todo o neolítico, e Stonehenge, na Inglaterra, em cerca de 1800 a.C., agruparam-se para formar, respectivamente, alinhamentos e círculos sagrados; e os dólmens, sepulcros construídos com lajes verticais que sustentavam pedras horizontais. Os dólmens desenvolveram-se até formar câmaras mortuárias subterrâneas, que chegavam a ter mais de 25m de largura, como a caverna de Menga, em Málaga, na Espanha.

    No curso do segundo milênio surgiu no sul da Europa uma série de culturas bastante avançadas do ponto de vista arquitetônico, entre as quais a do Argar, no sul da Espanha, a dos talayots -- monumentos megalíticos --, nas ilhas Baleares, e a florescente cultura do bronze na Córsega e Sardenha, onde se erigiram as nuraghi, torres às vezes cercadas de fortificações. Seria, porém, em Creta e Micenas que se lançariam as bases da futura arquitetura grega.

    Creta e Micenas. Entre 2000 e 1450 a.C., floresceu na ilha de Creta uma civilização comercial que, por meio de sua influência na cultura micênica, constituiu o primeiro antecedente da Grécia clássica.

    O edifício principal da arquitetura cretense foi o palácio, cuja estrutura conhecemos graças às escavações realizadas em Cnossos, Hágia Triada e Festo. Os palácios foram concebidos na forma de um conjunto de diversas salas e corredores irregulares, em torno de um grande pátio retangular. Como os egípcios, dos quais sem dúvida receberam influências, os cretenses utilizavam a arquitrave e usavam em suas construções o barro e a pedra, embora possuíssem magnífico domínio do trabalho da madeira, com que freqüentemente substituíam os materiais anteriores.

    Depois de destruírem Creta, os aqueus de Micenas - povo de origem indo-européia instalado no Peloponeso - puderam desenvolver uma arquitetura própria, de que vários elementos passariam diretamente para a arte grega. À diferença de Creta, cuja condição insular tornava-a menos vulnerável, os micenianos protegeram suas cidades com grandes muralhas, feitas de blocos de pedras mal desbastadas, que receberam o nome de "muros ciclópicos". A mais famosa dessas muralhas é a que circunda o palácio real de Micenas, com sua monumental Porta dos Leões.

    Os palácios micênicos apresentavam uma clara influência dos cretenses, mas a redução de seus componentes de construção básicos anunciava o gosto pela ordem racional peculiar à arquitetura helênica. Três elementos essenciais permaneciam nesta: os propileus, ou grandes portas de entrada, ante as quais se alçava um pórtico de colunas; o domo, ou pátio, também rodeado de colunas; e o eixo central deste, o mégaro, edifício central, composto de um vestíbulo, uma ante-sala e a sala real, ou lar, sustentada por quatro colunas, provavelmente de madeira. Outro importante progresso da construção micênica foram as edificações fúnebres, particularmente as chamadas "tumbas de falsa abóbada", nas quais um acúmulo de silhares superpostos e escalonados dava a falsa impressão de abobadamento.

    Grécia helênica. A invasão da Grécia, em torno de 1200 a.C., por outros povos indo-europeus, os dórios, marcou o fim da cultura micênica e expulsou os invasores que os precederam, os jônios, para as ilhas do Egeu e as costas da Anatólia. A integração de dórios e jônios, que deram seu nome às duas grandes ordens arquitetônicas gregas, constituiu a base da cultura helênica, cujos monumentos mais notáveis com freqüência redundaram da fusão das influências orientais com a elegância da arte jônica e o rigor e a claridade próprios da dórica.

    No chamado período geométrico, que se estenderia aproximadamente até o começo do século VII, a arquitetura não apresentou grandes inovações, e o material mais empregado foi a madeira. Seria já no período arcaico, cujo fim se costuma datar do início do século V, que, com o auge da polis (a cidade) e o desenvolvimento da construção em pedra e mármore, a arquitetura grega atingiria a maturidade.

    A construção básica em torno da qual girou toda a arquitetura helênica foi o templo, não como lugar de reunião, mas como a casa do deus, situado em um recinto a que se chegava através de portas monumentais. Sua planta, inspirada no mégaro micênico, consistia essencialmente em um vestíbulo, ou prónaos, que se abria para a câmara central ou naós (também chamada de cela), retangular, circundada por muros de pedra e onde se achava o altar. No extremo oposto ao prónaos havia outra pequena câmara, o opistódomo, que se comunicava ou não com o naós. Conforme a estrutura externa das colunas, os templos recebiam nomes diversos: o prostilo, que só tinha uma ordem de colunas diante do naós; o anfiprostilo, que também as possuía na parte posterior; e o períptero, cercado por um peristilo de colunas.

    Foram os elementos arquitetônicos dos templos que distinguiram a arte dórica, surgida na península helênica, da jônica, que floresceu nas colônias da Anatólia. A estrutura desses templos era basicamente a mesma e as dimensões relativamente reduzidas, pois a cultura grega era antes de tudo antropomórfica. O templo dórico apoiava-se em uma base escalonada, chamada estilóbato. Sobre esta erguiam-se diretamente as colunas, cujo corpo, ou fuste, era estriado. Na parte superior assentava-se o capitel, moldura que punha as colunas em contato com o entablamento. Este reproduzia a estrutura dos antigos templos de madeira, construídos com vigas que se entrecruzavam, apoiando-se nas colunas e nas paredes do naós para sustentar a armação do teto. Tais vigas foram substituídas por blocos de pedra. O entablamento, de baixo para cima, compunha-se de três níveis horizontais: a arquitrave, que constituía a sustentação e tinha o exterior liso; o friso, ornado com saliências (as métopes) e reentrâncias (os tríglifos); e a cornija, que se projetava do friso para proteger da chuva e se prolongava em dois lados superiores inclinados, paralelos à vertente do telhado, formados por vigas emparelhadas por cima das quais se dispunham as telhas. Na frente do templo, os três lados da cornija formavam um triângulo - ou frontão - com o tímpano no centro, onde costumavam situar-se relevos ou esculturas.

    A estrutura do templo dórico fora concebida para realçar o contraste entre as formas verticais das colunas, dispostas de acordo com proporções geométricas, e os planos horizontais da base e do entablamento. O templo jônico obedecia aos mesmos modelos. As duas diferenças básicas estavam nas colunas, que, para serem mais elegantes, precisavam de uma base (plinto) que as unisse ao entablamento e lhes desse maior sustentação, e no capitel mais decorado, com duas volutas que sobressaíam do corpo da coluna. Além disso, tanto o entablamento como o frontão eram mais ornamentados.

    Com a evolução das técnicas, a estrutura dos templos tornou-se mais complexa. Nos templos jônicos de Hera e de Ártemis em Samos, duas filas de colunas dividiam o naós em três naves. Um tríplice peristilo de colunas cercava esses templos. Disposição similar apresentava o templo de Zeus em Olímpia, em estilo dórico, construído entre 470 e 450 a.C., já no início do período clássico.

    O auge da arquitetura clássica grega foi sem dúvida a monumental Acrópole de Atenas, colina sagrada reconstruída no século V a.C., a que se chegava por imensos propileus de colunas. Diversas escalinatas e passeios ligavam as diferentes construções, proporcionando unidade harmônica ao conjunto. Para isso contribuía, de igual modo, a fusão de edifícios jônicos, como o Erectéion e o templo de Atena Nicéia, e dóricos, como o magnífico Pártenon, construído a partir de 445 a.C., conforme plantas do arquiteto Ictino, e concebido segundo critérios de rigorosa harmonia, cujo parâmetro era a distância entre as colunas. Os ornamentos e os famosos baixos-relevos de Fídias mostravam uma nítida intenção de incluir traços jônicos e, por isso, o templo pode ser considerado uma autêntica síntese do classicismo grego.

    A partir do começo do século IV começou a desenvolver-se a arte pós-clássica, que, depois das conquistas de Alexandre o Grande na Ásia, deu lugar ao chamado período helenístico. O mausoléu de Halicarnasso, construção fúnebre erigida naquela cidade em homenagem ao rei Mausolo, morto em 352 a.C., já revelava influências orientais, que posteriormente se acentuaram. O traço arquitetônico mais característico foi o capitel coríntio, variante do jônico, porém com as volutas ainda mais destacadas, em forma de folhas de acanto.

    No decorrer desses séculos, a arquitetura grega deixou de concentrar-se no templo e demonstrou interesse renovado pelas construções civis. Fixou-se a forma definitiva do teatro - o mais antigo que chegou até nossos dias é o de Epidauro, do século IV a.C. -, determinando-se as proporções regulares que deviam reger a skené (cena) e a cávea, que costumava apoiar-se na encosta de uma colina. Sobretudo no Egito e na Anatólia, desenvolveu-se o gosto pela monumentalidade. Foram provas disso edificações hoje desaparecidas, como o farol de Alexandria e o colosso de Rodes. Todavia, permanece intacta uma parte do altar de Zeus em Pérgamo (século II a.C.), em que arquitetura e escultura se fundiram em um exaltado barroquismo. Do ponto de vista urbanístico, a inovação mais expressiva foi a aplicação do esquema geométrico ao contorno de cidades inteiras, como plano geral para seu desenvolvimento posterior.

    Durante os primeiros séculos de Roma, até a constituição do império, a arquitetura esteve claramente marcada pela herança helenística e pela interpretação que os etruscos deram às tradições da arquitetura grega. Os romanos roubaram a esse povo a hegemonia na Itália central, mas conservaram, entre outros elementos de sua cultura, o capitel etrusco, que transformaram no toscano, mais simples que o dórico.

    As grandes inovações da arquitetura romana surgiram no começo da era cristã, principalmente do ponto de vista técnico, graças ao progressivo aperfeiçoamento do arco - estrutura arquitetônica de forma curva que permite vencer o espaço entre dois pontos, em geral colunas ou pilares, e repartir entre estes os empuxos do muro, da abóbada e da cúpula. Esses elementos eram conhecidos pelos povos mesopotâmicos, porém, em Roma seu emprego foi mais sistemático e audacioso, graças à elaboração e ao aprimoramento de materiais de construção como o tijolo cozido e o concreto, que consistia em uma aglomeração de partículas de areia, cascalho, água e cal, que, por sua maleabilidade, podia ser vazado em moldes (ou armações) e conferia grande coesão aos muros e abóbadas. O potencial extraordinário dessas novas técnicas, que permitiam empregar menor número de colunas e pilares, ampliando assim o espaço interior, ficou patente na imensa cúpula do Panteão romano, erigida por Adriano no ano 126, na qual os empuxos verticais provocados por seu enorme peso distribuem-se, mediante um sistema de arcadas, entre as paredes do edifício cilíndrico que a sustenta.

    O emprego das ordens gregas e romanas, que em princípio era comum, foi diminuindo também a partir da época de Augusto, para ficarem apenas como elementos decorativos, em geral nos templos. Estes, à diferença dos helênicos, elevavam-se sobre um alto pódio com escadas e normalmente tinham planta circular ou quadrangular.

    A capacidade técnica dos arquitetos romanos manifestou-se de maneira plena em obras de engenharia, como pontes e aquedutos, e em edificações de uso civil. O conjunto mais característico era o foro, que consistia num espaço público em que se agrupavam diferentes construções. A seu lado, ou a ele integrada, achava-se a basílica, edifício no qual se realizavam desde reuniões comerciais a sessões judiciais, e que em geral possuía três naves longitudinais, das quais a mais alta era a central, com janelões que permitiam iluminar o interior. Na extremidade das naves havia um recinto semicircular destinado ao tribunal.

    O gosto romano pelos espetáculos públicos levou também à construção de grandes teatros e anfiteatros, como o Circo Máximo de Roma e, após sua destruição, o Coliseu (70-82). Do ponto de vista urbanístico, os romanos guardaram muitos traços helenísticos; o desejo de tornar as cidades mais habitáveis levou à criação de uma ampla rede de termas públicas, encanamentos etc., assim como de numerosos monumentos e construções ornamentais (arcos de triunfo, obeliscos), além de passeios e jardins. Esse conceito também se estendeu à construção rural de casas e vilas que, em certos casos, como a célebre vila de Adriano, em Tivoli, constituíam uma perfeita síntese de elementos arquitetônicos e paisagísticos.

    A crescente influência oriental no mundo romano e a progressiva descaracterização ideológica motivaram, com o passar dos séculos, uma acentuada tendência para as formas ecléticas, o barroquismo decorativo e a monumentalidade. Reflexo disso foram as imensas termas de Caracalla, em Roma -- com profusão de esculturas, pavimentos, mármore e estuque --, que abarcavam mais de 14ha, e o santuário de Baalbek, no Líbano. A herança romana, porém, seria conservada, a partir de diferentes perspectivas, por Bizâncio e pela arte paleocristã e medieval.

    Arquitetura paleocristã e bizantina. As primeiras igrejas cristãs erigidas em Roma adotaram o modelo da basílica romana, que melhor atendia à necessidade de reunir um grande número de fiéis. A de São Pedro, em Roma, construída em 324, era um exemplo clássico: corpo de cinco naves - posteriormente se popularizaria a construção de três - com teto de madeira, em que a nave central terminava numa outra, perpendicular, ou transepto. Quando esta possuía a mesma largura que a primeira, denominava-se cruzeiro. Depois deste, no eixo da nave principal abria-se uma abside, espaço semicircular abobadado que abrigava o altar. Todo o recinto, que não era ornamentado e deixava à vista os materiais de construção, era precedido por um vestíbulo ou nártex e um átrio. Sua estrutura permitia realçar a abside, onde as naves laterais diminuíam progressivamente de altura em relação à central.

    Seria esta a origem da planta de cruz latina, na qual o transepto dividia a nave central em dois braços desiguais, e que seria a mais empregada em Roma.

    No Império Romano do Oriente, origem do império bizantino, desenvolveu-se o gosto pelas igrejas, com destaque para o edifício central. Com esse intuito, desenharam-se plantas centrais, de cruz grega (com os quatro lados iguais), octogonais etc., ou de basílica, com a cúpula no cruzeiro.

    A arquitetura bizantina alcançou seu máximo esplendor no século VI, sob o reinado de Justiniano. Influenciados pela tradição decorativa oriental - o que os levou a cobrir as paredes com mosaicos, mármore etc. -, pelas técnicas romanas e por sua aplicação nas igrejas paleocristãs, os arquitetos de Constantinopla criaram formas que resolveram muitos dos problemas de abobadamento não solucionados pelos romanos. A principal contribuição dos bizantinos terá sido, talvez, a construção de cúpulas sobre a base de um edifício quadrado. Para esse fim criaram um sistema que consistia em dispor quatro arcos nas paredes principais de sustentação, de modo que os trapézios curvilíneos entre o anel da cúpula e os arcos descarregassem os empuxos do peso da própria cúpula.

    Obra-prima da arquitetura bizantina foi a igreja de Santa Sofia, em Constantinopla, erigida por ordem de Justiniano. Apesar de sua planta retangular, o exterior assemelha-se a um conjunto de volumes verticais agrupados em torno de uma enorme cúpula, com mais de trinta metros de diâmetro, erguida sobre quatro pendentes que se apóiam em duas absides e dois arcos semicirculares. A luz penetra por quarenta janelas abertas na parte inferior da cúpula. A tônica na verticalidade dessa construção, também presente na igreja de San Vitale, em Ravenna, centro das possessões bizantinas na Itália, exerceu enorme influência nas concepções arquitetônicas da cristandade ocidental, estendendo-se à Anatólia e aos países eslavos.

    Idade Média

    Arquiteturas não européias. Durante os séculos que correspondem à Idade Média européia, floresceram outras culturas arquitetônicas até então sem grande relevância.

    Arquitetura árabe - A rápida expansão do Islã, a partir do século VII, levou o povo árabe, primitivamente nômade, a adotar as técnicas arquitetônicas dos povos conquistados. No final do século VII levantou-se o Domo do Rochedo (mesquita de Omar), em Jerusalém, inspirada nos templos bizantinos de planta circular. De Bizâncio e da Mesopotâmia os árabes também aproveitaram a abóbada e o arco, muitas vezes lobulado.

    Com o tempo, porém, os arquitetos árabes souberam converter seu sincretismo num estilo pessoal, em que a monumentalidade era atenuada pelo emprego de formas curvas e onduladas. O edifício característico era a mesquita, junto à qual se alçava o minarete. Do alto desta torre, os fiéis eram chamados para a oração. Exemplo da capacidade criadora dos arquitetos árabes é o aparecimento, já no século IX, dos arcos ogivais na mesquita de Ibn Tulun, no Cairo, embora não tivessem a função estrutural que adquiririam três séculos depois na Europa.

    A Espanha muçulmana, por sua peculiar situação geográfica, abeberou-se em fontes arquitetônicas diversas. Na mesquita de Córdoba, iniciada no século VIII, encontram-se desde colunas e capitéis romanos a arcos em ferradura, que se crê terem sido adotados da arte visigótica, pois os existentes na mesma época no Oriente eram afilados. No palácio da Alhambra, em Granada, cuja construção se iniciou no século XIII, os elementos são genuinamente árabes, com predominância dos ambientes reservados e da decoração paisagística.

    Arquitetura pré-colombiana - Embora os vestígios arquitetônicos dos povos pré-colombianos remontem a épocas muito anteriores, as primeiras manifestações monumentais preservadas são as que integram o conjunto arquitetônico de Teotihuacan, cujos templos se levantaram entre os séculos II a.C. e II da era cristã. Entre os mais notáveis exemplos desse impressionante centro cultural e religioso cabe citar o templo do Sol, o palácio de Quetzalpapaloti, cuja disposição em torno de um núcleo central lembra os palácios mediterrâneos, e a Cidadela, onde se encontra o templo de Quetzalcóatl, que revela notável domínio da pedra talhada. Também estavam presentes as pirâmides truncadas, típicas da arquitetura centro-americana. O esplendor de Teotihuacan prosseguiu na cultura zapoteca, que erigiu os centros religiosos de Mitla e Monte Albán, e na tolteca, com as grandes cidades de Tula e Xochicalco. A esta última ligou-se estreitamente a arte maia-tolteca, que floresceu entre os séculos XI e XII e deixou como marca de sua grandeza o conjunto arquitetônico de Chichén Itzá, na península de Yucatán. Além do emprego das colunas - templo dos Guerreiros - e da planta circular, os maias tentaram pela primeira vez utilizar o arco e a abóbada, que construíam com forma angular e que eram desconhecidos dos demais povos das Américas.

    A última grande civilização da América Central foi a asteca, com capital em Tenochtitlan. Os astecas dominavam o uso da pedra e do tijolo secado ao sol. Seus monumentos mais notáveis eram o templo piramidal, ou teocali, e os palácios. O traço peculiar da arquitetura asteca, no entanto, foi provavelmente sua extraordinária concepção urbanística, que converteu Tenochtitlan em uma cidade lacustre com hortos e ilhas flutuantes artificiais, canais, calçadas, diques e aquedutos.

    Na América do Sul floresceram também notáveis civilizações que desenvolveram técnicas arquitetônicas próprias, como o império de Tiahuanaco, surgido por volta do século VIII da era cristã, com traços das culturas regionais anteriores. Suas ruínas mais importantes são a própria cidade de Tiahuanaco e o santuário costeiro de Pachacámac. A culminância da arquitetura andina seria a civilização inca, que logrou extraordinário domínio da técnica da pedra polida e demonstrou nos grandes complexos arquitetônicos de Cuzco e Machu Picchu uma admirável noção de espaço. É provável que o desenvolvimento das civilizações pré-colombianas trouxesse soluções novas para muitos problemas de construção, por seu isolamento em relação ao resto do mundo, mas a conquista espanhola anulou essa possibilidade.

    Os primórdios da arquitetura medieval. Dos séculos que medeiam entre o fim do Império Romano e o aparecimento da arte românica restam edifícios religiosos, inspirados na tradição paleocristã e bizantina. Exemplos desta última são a capela Palatina, de Aquisgrana (atual Aachen, Alemanha), erigida por Carlos Magno em 805, conforme o modelo de planta octogonal, e a igreja de São Marcos, em Veneza, construída no século XI.

    O mais comum, porém, foi o emprego da planta em cruz latina, devido fundamentalmente à necessidade de ampliar o corpo longitudinal da nave central para acolher comunidades cada vez mais numerosas de fiéis. Desta forma, as variantes regionais - arte carolíngia, arte otoniana na Alemanha, arte visigótica e asturiana na Espanha - foram-se aproximando até chegarem, em torno de 1150, à formação de um estilo europeu de traços essencialmente comuns, o românico, cuja expansão se deveu sobretudo às ordens monásticas, com destaque para a de Cluny.

    Românico - A designação "românica", emprestada à arquitetura desse período, remonta ao século XIX e é uma alusão ao retorno de certos elementos arquitetônicos romanos. Na realidade, o românico nada mais é que a culminação de um processo estrutural iniciado nas igrejas paleocristãs e que encontraria sua expressão máxima no gótico.

    De modo geral, são vários os elementos que definem a arquitetura românica em suas origens: o emprego do arco semicircular; a substituição da cobertura plana da nave central por uma abobadada, geralmente de meio canudo, isto é, semicilíndrica, sustentada por arcos semicirculares; a utilização de reforços; o predomínio da planta em cruz latina, com três ou cinco naves, e a subordinação dos ornamentos escultóricos e pictóricos ao conjunto arquitetônico.

    O objetivo dessa estrutura era proporcionar crescente verticalidade às igrejas, de acordo com o sentimento espiritual da época. Para isso era preciso reduzir a espessura das paredes, descarregando as forças dinâmicas dos empuxos da abóbada sobre os contrafortes, os pilares e as colunas da nave central. Esse processo evoluiu para a abóbada de aresta, resultado da interseção de duas abóbadas de canudo, o que produzia um espaço quadrado demarcado por quatro arcos. Assim, as arestas compõem um xis na face inferior da abóbada, originando quatro zonas iguais, que recebem o nome de abas. Tal sistema permite concentrar os empuxos em determinados pontos, o que não ocorre na abóbada de canudo, e constituiu a origem da abóbada de claustro, que era do tipo de aresta, com o acréscimo de duas nervuras - ou arcos ogivais - diagonais, que seguiam a linha das arestas. Essa abóbada constituiria a transição do românico para o gótico.

    A ordenação interior da igreja também sofreu diversas transformações ao longo dos anos, nas diferentes regiões européias. Nas áreas mediterrâneas, como a Catalunha, a Provença ou o sul da Itália, as igrejas passaram a ter três naves, em vez de uma, com forte tendência a atenuar a espessura das paredes. No norte da Itália, a influência romana permaneceu muito forte; na Lombardia, recuperou-se a planta basilical clássica. O mais belo monumento do românico italiano foi a catedral de Pisa, iniciada em 1063, com o conjunto do batistério e a célebre torre. Embora se observem elementos bizantinos, a leveza das linhas é tipicamente européia.

    A França, que fora o berço do estilo com a edificação da segunda igreja do mosteiro de Cluny no século X, deu os melhores exemplos do românico: a abadia de Cluny (1088-1130) e as igrejas de peregrinação. Dentre as mais características encontra-se a de Saint Sernin, em Toulouse, concluída em 1096, e que antecipa elementos do gótico: corpo de cinco naves, transepto com outras três naves perpendiculares às primeiras, notável elevação da nave central e uma abside no eixo desta, rodeada por um corredor semicircular, a que têm acesso várias capelas absidais. As igrejas da rota de peregrinação a Santiago de Compostela são desse tipo. A região da Normandia, que até o início do século XII não havia começado a abobadar a nave central, criou em menos de cinqüenta anos um sistema de abóbada de claustro em que se ressaltavam os elementos verticais. Essa tendência passou para a Inglaterra sob o nome de anglo-normanda, e foi outra das fontes do gótico.

    Na Alemanha, onde as escolas carolíngia e otoniana exerceram forte influência sobre o românico, este chegou ao auge nas grandes catedrais do final do século XI e início do XII, com Worms, Spira e Brunswick, muitas das quais foram reestruturadas nos séculos posteriores.

    A arquitetura civil românica não desenvolveu concepções tão renovadoras como a religiosa. Destacam-se as construções militares, os edifícios públicos -- prefeitura de Saint Antonin na França -- e o albergue do convento de Mont-Saint-Michel, na Normandia, construído no final do século XI.

    Gótico - Embora durante muito tempo se tendesse a tratar o gótico - nome depreciativo que o Renascimento deu a esse estilo, por alusão a seu caráter bárbaro, "godo" - como uma contraposição ao românico, ele foi na realidade um aprofundamento dos elementos básicos do românico, particularmente de sua verticalidade. Na ordem social e ideológica, a formação das monarquias absolutistas e o clima religioso criado pela escolástica favoreciam a construção de edifícios mais altos, que refletissem os desejos de ascensão espiritual. Essa arquitetura representou uma autêntica revolução na técnica construtiva, com o emprego do arco ogival, resultante do encontro de dois arcos que se cortam e, ao se cruzarem, formam um ângulo no ponto mais alto.

    Aplicando o arco ogival à abóbada de claustro, tanto nos quatro arcos que compõem cada vão da nave como nas diversas nervuras diagonais que unem tais arcos, constitui-se a abóbada ogival, típica do gótico e que, diferentemente da originária de arcos semicirculares, permite cobrir todo tipo de espaço. O peso das superfícies da abóbada era recolhido pelas nervuras, que por sua vez o transmitiam aos pilares ou colunas. Contudo, o afilado dos arcos fazia com que o peso da abóbada exercesse empuxos não apenas verticais, como também laterais. Para absorvê-los, construíram-se grandes arcos externos dispostos perpendicularmente ao eixo da abóbada, os arcobotantes, que os distribuíam pelos contrafortes. Conseguia-se assim que do ponto mais elevado do edifício o peso se descarregasse progressivamente de um elemento de construção para o outro, até chegar ao solo. Além disso, sendo menor o espaço entre os pilares dos arcos, estes eram mais numerosos, com o que se multiplicavam os elementos de sustentação. A armação da igreja era formada por uma sólida estrutura, com paredes mais leves e elementos decorativos, como vidraças ou vitrais, que conferiam peculiar iluminação à catedral gótica.

    A planta era de cruz latina, embora de maior complexidade. A divisão característica era em três naves - com a central mais larga e alta que as laterais - e outras tantas no cruzeiro, que se prolongavam por detrás da abside, para formar o corredor que a contornava. Uma rosácea - vitral circular -, rodeada por grandes torres, ornamentava a fachada principal. Eram também freqüentes entradas monumentais em ambos os extremos do cruzeiro.

    À semelhança do românico, registraram-se no gótico variantes regionais, talvez menos evidentes. Aos poucos, a estrutura dos arcos e nervuras adquiriu maior complexidade. O gótico teve origem na França, embora não estivesse delimitado a uma região específica. Diversos outros elementos se desenvolveram na Normandia e na Borgonha, nos mosteiros da ordem cisterciense, cuja grande abadia de Clairvaux foi reedificada no início do século XII. Mas sua cristalização ocorreu ao norte de Paris, na Île de France, com a reconstrução da abadia de Saint-Denis (1140-1144). Em 1163 teve início a construção da catedral de Notre-Dame (Nossa Senhora) de Paris e em meados do século XVIII já haviam sido edificadas, em sua estrutura básica, as grandes catedrais representativas: Amiens, Chartres e Reims. Posteriormente se desenvolveu o gótico flamejante (flamboyant), de tendência decorativa, que depois se estenderia para além das fronteiras da França.

    Em outras regiões da Europa, o gótico teve evolução mais lenta e perdurou até datas bastante tardias. Na Inglaterra, o estilo horizontal da catedral de Canterbury, cuja construção começou em 1174, transformou-se em ousada verticalidade na capela do King's College de Cambridge (1446-1515). Na Espanha, as catedrais de León, Burgos e Toledo, iniciadas no século XIII, receberam acréscimos de novos elementos góticos no século XVI. Em terras germânicas, onde o gótico esteve por muito tempo ligado a estruturas românicas, a reconstrução da catedral de Colônia começou no fim do século XIII, e a de Santo Estêvão, em Viena, só chegou a termo em 1430. A herança clássica da Itália, que logo evoluiria para as concepções renascentistas, impediu a aceitação do novo estilo, e seu único monumento notável foi a catedral de Milão (1386).

    A arquitetura gótica também logrou êxitos na construção civil, conseqüência lógica do desenvolvimento dos núcleos urbanos, o que se refletiu nas mais diversas edificações: centros públicos e comerciais, como a prefeitura de Bruxelas (séculos XIV e XV) e a bolsa de Ypres (1260-1380), ambas na atual Bélgica; palácios particulares, como o de Jacques de Coeur em Bourges, França (1422-1453); e construções militares, como o castelo teutônico de Marienburg (séculos XIII-XIV), o castelo de Chillon em Genebra (séculos XIII-XIV), o palácio-fortaleza dos papas de Avignon (1336-1342) e tantos outros.

    Renascimento - Ao contrário do românico e do gótico, o Renascimento não surgiu como um movimento de tendência européia, mas como um estilo nacional limitado a uma região específica, a Itália, no princípio do século XV. Sua extensão ao resto da Europa só se deu no século seguinte, e mesmo assim de forma muito matizada.

    Itália - O florescimento econômico e cultural dos pequenos estados italianos permitiu a seus arquitetos efetuar uma reavaliação do legado greco-romano, continuamente presente naquelas regiões, e escolher seus elementos fundamentais para adaptá-los à filosofia humanista, que já não aceitava o dogmatismo escolástico e ansiava por dotar seus ideais estéticos de uma ordem racional. Estudaram-se os tratados clássicos, particularmente o de Vitrúvio, e aprofundaram-se suas formulações. Como conseqüência, o arquiteto converteu-se em teórico da arte e também em técnico, ganhando a individualidade de que careciam os anônimos mestres-de-obras do gótico.

    No plano arquitetônico, as características básicas do Renascimento se resumem em três aspectos: recuperaram-se os elementos clássicos, como o emprego das ordens, a utilização dos tímpanos etc.; adotou-se para o desenho de plantas e estruturas uma concepção essencialmente geométrica, baseada nas proporções dos tratadistas antigos; e deu-se ênfase ao edifício central, tido como símbolo do universo regido pelas leis divinas. A nova espiritualidade colocou a arquitetura civil no mesmo plano da religiosa.

    Os primeiros edifícios renascentistas foram construídos em Florença pelo arquiteto Filippo Brunelleschi, que já em 1419 executara a obra do hospital dos Inocentes. Com a capela Pazzi, iniciada em 1430, e a igreja de Santo Spirito, concebida em 1436, segundo a idéia de cruzeiro com cúpula e naves ajustadas a rígidas proporções matemáticas, Brunelleschi firmou as bases teóricas da nova arte. Sua obra mais ambiciosa, porém, foi a cúpula da catedral de Florença. As idéias do arquiteto foram aperfeiçoadas por Leone Battista Alberti, na igreja Sant'Andrea, de Mântua, também com cúpula no cruzeiro e uma única nave central que dava acesso a capelas laterais. Também foram florentinos os primeiros palácios renascentistas, como o dos Medici, iniciado em 1444 por Michelozzi Michelozzo, o Rucellai, do próprio Alberti, que sobrepôs em suas três plantas as ordens dórica, jônica e coríntia, e o da vila Medici, realizado a partir de 1485 por Antonio da Sangallo, que lançou o modelo do palácio rural renascentista em meio a uma atmosfera bucólica de jardins e fontes.

    No início do século XVI, graças ao mecenato do papa Júlio II, o centro artístico deslocou-se de Florença para Roma, dando origem ao chamado Alto Renascimento. O edifício mais característico da mudança de concepção foi o pequeno templo do mosteiro de San Pietro, em Montorio, construído em 1502 por Donato Bramante. Sua cúpula semi-esférica apóia-se em um cilindro sustentado por uma balaustrada, que por sua vez traz uma série de colunas toscanas. Acentua-se assim a homenagem à antiguidade clássica, mesmo utilizada como mero elemento simbólico, e o edifício se estrutura como uma unidade fechada e sóbria, adequada a sua dignidade religiosa. Bramante foi também encarregado de iniciar os trabalhos de reconstrução da basílica de São Pedro. Sua planta inicial, de cruz grega, foi depois retocada por Rafael, que alongou um dos extremos. Michelangelo empreendeu a direção da obra e levantou a imensa cúpula, que não era completamente semicircular, mas alteada. Esse rompimento com a idéia clássica da harmonia viria a ser um dos determinantes das novas diretrizes arquitetônicas.

    Por volta de 1530, surgiu o chamado maneirismo, cuja característica fundamental não seria tanto o abandono dos ideais clássicos, mas sua distorção. Exemplos típicos foram o palácio do Chá, em Mântua, obra de Giulio Romano, e a igreja jesuíta de Il Gesu, em Roma, iniciada em 1523 por Giacomo da Vignola e terminada por Giacomo della Porta, que acentuou os aspectos dinâmicos da construção. Sob outra perspectiva, Andrea Palladio, que trabalhou na região de Vicenza, conferiu a suas mansões campestres, concebidas à maneira clássica, uma elegância formal que exerceria forte influência na Inglaterra e no classicismo francês.

    Resto da Europa - Na maior parte das nações européias, o Renascimento raras vezes alcançou a pureza a que chegou na Itália, com exceção talvez da França, que no início do século XVI empregou amiúde as ordens clássicas e, no reinado de Francisco I, falecido em 1547, adotou uma forma prematura de maneirismo cujo centro de irradiação foi o palácio de Fontainebleau. Na Inglaterra, empregaram-se sobretudo os motivos renascentistas como decoração. Um exemplo é a torre das Cinco Ordens, erigida por Thomas Holt, em Oxford, no ano de 1602. A estrutura arquitetônica, porém, manteve-se fiel à verticalidade do gótico. Também a Alemanha conservou a tradição gótica medieval, com predomínio do ornamento, que tornou sua arquitetura fortemente identificada com o barroco.

    Na Espanha e em Portugal, os remanescentes árabes e góticos deram lugar a dois estilos renascentistas caracterizados pela rica decoração das fachadas: o isabelino espanhol, que logo passou a chamar-se plateresco (Universidade e Casa das Conchas, de Salamanca) e o manuelino português (mosteiro dos Jerônimos, em Belém). Na Espanha, porém, o Renascimento produziu um monumento de cunho classicista, o mosteiro de San Lorenzo de El Escorial, construído por Juan de Herrera entre 1563 e 1584 por ordem de Filipe II, e cujo abstracionismo geométrico simbolizava a austera moral da Contra-Reforma.

    Barroco e neoclassicismo - Do início do século XVII até cerca de 1750, floresceu na Europa um estilo arquitetônico mais complexo, denominado barroco. Na verdade, duas tendências coexistiram nesse período. Uma delas foi o classicismo, adotado sobretudo na França, com ênfase no tratamento monumental das grandes massas geométricas e na utilização das ordens clássicas. A outra foi o próprio barroco, que pretendia criar uma sensação de dinamismo e de distorção espacial e empregava as ordens clássicas, combinando-as de maneira audaciosa. No fundo, os dois estilos tinham um objetivo comum: mostrar a magnificência das grandes cortes absolutistas. Na verdade ocorreu amiúde uma fusão do barroco e do classicismo, o que em meados do século XVIII evoluiria para um movimento supranacional, talvez não inovador, mas sem dúvida significativo: o neoclassicismo.

    Barroco - Itália - O barroco italiano teve seu centro nervoso em Roma, e seu artífice em Gian Lorenzo Bernini, que integrou os elementos arquitetônicos, pictóricos e escultóricos em uma síntese repleta de movimento. A igreja de Sant'Andrea al Quirinale, iniciada em 1677, e a escadaria régia do Vaticano, onde a perspectiva parece realçada por um hábil tratamento da luz, foram, junto com as colunatas da praça de São Pedro, suas obras mais características. Também em Roma, Pietro da Cortona introduziu, com a igreja de Santa Maria della Pace, o motivo da fachada principal abaulada. No entanto, o mais ousado artista do barroco romano terá sido Francesco Borromini, que na igreja de San Carlo alle Quattro Fontane (1638-1667) fundiu a planta central com a longitudinal e eliminou as superfícies planas da fachada.

    Fora de Roma, os principais criadores foram o piemontês Guarino Guarini e o veneziano Baldassare Longhena. Pouco a pouco, porém, o repertório das novidades barrocas começou a se repetir e, conquanto obras como a praça de Espanha, em Roma (1725), de Francesco de Sanctis, mantivessem em parte o antigo vigor, o palácio Madama de Turim (1718-1721), construído por Filippo Juvara, revelava a influência do classicismo francês.

    França. A arquitetura clássica francesa desenvolveu-se no período de Luís XIV, morto em 1715. Sua principal característica foi a ênfase na magnificência, por meio de uma composição sóbria, ordenada e racional, traços que dominavam toda a cultura francesa da época.

    O palácio de Versalhes, cuja parte principal foi erigida entre 1668 e 1690 por Louis le Vau e Jules Hardouin-Mansart, representou a síntese do estilo, com sua forma de bloco perfeitamente integrado, a disposição simétrica dos eixos e o realce das fachadas com elementos greco-romanos. Os jardins, meticulosamente projetados, contribuíam para destacar o corpo do edifício. Outros exemplos notáveis foram a fachada oriental do Louvre, de Claude Perrault, e o palácio de Blois, reconstruído por François Mansart.

    Após a morte de Luís XIV, sobreveio uma tendência ao estilo menos severo e mais leve, cuja expressão final foi o rococó, que foi sobretudo uma arte de interiores -- embora mantivesse a grandiloqüência nas fachadas. Caracterizado por profusa ornamentação, o motivo principal do rococó foi a rocalha, adorno em forma de concha que deu nome à tendência. O rococó limitou-se quase exclusivamente a palácios e vilas, como a casa Matignon em Paris.

    Outros países europeus. Na Alemanha e Europa central, o barroco encontrou expressão própria na arquitetura sacra, caracterizada pela tônica nos detalhes decorativos e pela ênfase na rotundidade dos elementos espaciais. Contam-se entre os mais criativos arquitetos do barroco o austríaco Fischer von Erlach, a quem se deve a colegiada de Salzburgo, e o alemão Balthasar Neumann, expoente do chamado "rococó alemão", que, ao contrário do francês, chegou às igrejas. Na Inglaterra, após a fase do "neopalladianismo" de Inigo Jones, Christopher Wren impôs à catedral de São Paulo em Londres um estilo essencialmente classicista, de características barrocas em alguns arremates arquitetônicos.

    Península ibérica e América - Em Portugal e Espanha, os arquitetos barrocos, embora influenciados pelos italianos, revelaram maior interesse pelos detalhes decorativos e plásticos do que pelos espaciais. O "churrigueresco" espanhol, nome derivado de José Benito Churriguera, cobriu as fachadas com uma profusão de elementos arquitetônicos, até quase ocultar suas linhas. A fachada do Obradoiro da catedral de Santiago de Compostela (1738-1747), obra de Fernando de Casas Novoa, logrou notável equilíbrio entre o rigoroso desenho de suas torres e a exuberante ornamentação frontal. Traço típico do barroco português foi a utilização do azulejo, a que se devem extraordinários efeitos cromáticos no mosteiro de Mafra.

    A reelaboração dessas tendências nas colônias latino-americanas resultou em um conjunto magnífico de obras arquitetônicas, sobretudo no México -- catedrais do México e de Puebla, igreja de Taxco e claustro "churrigueresco" do convento de la Merced; no Peru -- catedral de Lima e palácios vice-reais de Lima e Cuzco; e no Brasil, onde o escultor e arquiteto Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, desenvolveu uma obra fecunda em Minas Gerais.

    Neoclassicismo - A influência das idéias do Iluminismo, com sua defesa da ordem racional, e os descobrimentos arqueológicos de numerosas ruínas greco-romanas, como as de Pompéia, provocaram na Europa uma rejeição às formas do barroco e do rococó, gerando o chamado neoclassicismo.

    No entanto, a arquitetura neoclássica não chegou a contar com criadores de gênio. Na realidade, representou o esgotamento progressivo das formas tradicionais européias e foi um precursor da arquitetura de estilo do século XIX.

    Entre as construções neoclássicas que mais se aproximaram da serenidade própria de seus modelos cabe citar a porta de Brandemburgo, em Berlim, obra do alemão K. G. Langhans, a igreja de Sainte Geneviève em Paris, iniciada por Germain Soufflot em 1757 e que logo se converteria no Panthéon, e o museu do Prado em Madri, obra de Juan de Villanueva. Observou-se maior tendência à monumentalidade nas construções do período napoleônico, já no século XIX, entre as quais se destacou o Arco do Triunfo em Paris. O capitólio de Washington e o palácio de inverno de São Petersburgo são característicos do neoclassicismo.

    Século XIX - A evolução da arquitetura no século XIX foi marcada por duas tendências divergentes: de um lado a chamada arquitetura de estilo, que se inspirava nos modelos estéticos de épocas anteriores; de outro, as obras arquitetônicas e de engenharia realizadas com novos materiais surgidos a partir da revolução industrial, como o vidro, o ferro fundido e o concreto armado, que acabariam por gerar uma renovação técnica total. No fim do século, o modernismo constituiu um apelo ao espírito criativo com a adoção daqueles materiais, sem renunciar, à experimentação artística.

    Dentro da arquitetura de estilo, o movimento mais fecundo foi o neogótico, que surgiu no Reino Unido. Embora em princípio apresentasse os mesmos problemas que os demais -- a mera imitação dos traços exteriores dos estilos históricos, sem aprofundamento de sua estrutura arquitetônica formal --, o neogótico evoluiu para uma melhor compreensão do espírito gótico. Essa circunstância permitiu a criadores como o espanhol Antonio Gaudí e o francês Auguste Perret executar obras de concepção gótica, com emprego dos novos materiais, como o demonstra a igreja de Notre-Dame de Le Raincy, erigida por Perret em 1922.

    Progressos da engenharia e arquitetura. A produção industrial de ferro na Grã-Bretanha deu origem à primeira obra de engenharia nesse material: a ponte sobre o rio Severn, realizada em 1777 por Abraham Darby. Em poucos anos o ferro fundido passou a ser empregado em obras arquitetônicas, primeiro com propósitos meramente utilitários, como no teto do grande salão do Louvre, em Paris (1780), e depois com fins mais ambiciosos. A construção, por Joseph Paxton, em 1851, do palácio de Cristal de Londres, todo feito de uma delicada estrutura de ferro -- mais de 3.300 pilares -- e vidro, significou um passo decisivo para dissipar as dúvidas a respeito desses materiais. Na França, destacaram-se a Biblioteca Nacional de Paris, de Henri Labrouste (1868-1878), a fábrica de chocolate Meunier, em Noisiel-sur-Marne (1871-1872), primeira construção francesa com estrutura total de ferro, obra de Jules Saulnier, e a célebre torre Eiffel parisiense, do engenheiro Gustave Eiffel.

    As maiores inovações produziram-se, porém, nos Estados Unidos, sobretudo em Chicago, onde em 1885 William le Baron Jenney erigiu o primeiro arranha-céu, o Home Insurance Building. O líder da escola de Chicago foi Louis Sullivan que, no Auditorium Building, em Chicago (1889), e no Guarantee Trust Building, em Buffalo (1895), empregou o esqueleto de aço como estrutura construtiva, liberando os demais elementos de toda função sustentadora. A máxima de Sullivan "a forma segue a função" seria decisiva para a arquitetura posterior.

    Modernismo - O movimento modernista, que recebeu diferentes denominações conforme os países em que se desenvolveu, teve seu precursor direto no Art and Crafts do britânico William Morris, movimento que pretendia conjugar o utilitarismo com a criatividade estética. A arquitetura modernista avançou em duas linhas diversas. A vertente baseada em motivos orgânicos teve como principais representantes o espanhol Antonio Gaudí, que construiu em Barcelona o parque Güell, iniciado em 1900, a casa Milá (1905) e a inacabada catedral da Sagrada Família; os belgas Victor Horta e Henry van de Velde; e o francês Héctor Guimard. A tendência mais racionalista teve como representantes o escocês Charles Rennie Mackintosh, cuja obra-prima foi a Escola de Belas-Artes de Glasgow, construída entre 1897 e 1899, e o vienense Joseph Hoffmann, criador do Palais Stoclet de Bruxelas, entre 1905 e 1911.

    Século XX - A arquitetura do século XX foi desde o princípio dominada por duas noções: a utilização funcional dos edifícios e a integração destes a um padrão urbanístico geral. A tendência à funcionalidade foi desenvolvida sobretudo pelo alemão Walter Gropius, que em 1919 fundou a escola Bauhaus, em Weimar, e se inspirou em arquitetos anteriores, como seu compatriota Peter Behrens e o austríaco Adolf Loos. O edifício da nova Bauhaus, quando esta se transferiu para Dessau em 1927, com sua austera estrutura de concreto armado, foi característica de Gropius. Outro representante da Bauhaus, Ludwig Mies van der Rohe, criou o pavilhão alemão da Exposição Internacional de Barcelona, um modelo de espaço envolvente e articulado por painéis de vidro.

    O principal difusor do racionalismo arquitetônico, concentrado no emprego das formas geométricas e no uso do ângulo reto, seria o suíço Édouard Jeanneret, dito Le Corbusier, que plasmou estas concepções no palácio da Sociedade das Nações em Genebra (1927) e no palácio dos Sovietes em Moscou (1929-1933). Nos Estados Unidos, a arquitetura pragmática dos arranha-céus teve um magnífico exemplo no Saving Funds Society Building, de Filadélfia (1932), obra de George Howe e do suíço William Lescaze. No entanto, o maior arquiteto americano da época foi Frank Lloyd Wright, da escola de Chicago, cujo trabalho evoluiu para uma maior integração da arquitetura com a natureza, exemplificada pela célebre casa da Cascata, nos montes Allegheny, construída em 1936.

    A reação contra os excessos geometrizantes teve seu principal artífice no finlandês Alvar Aalto, que combinou os ensinamentos da Bauhaus com as concepções orgânicas e a arquitetura nórdica tradicional em obras como a biblioteca de Viipuri.

    Depois da segunda guerra mundial, as tendências arquitetônicas caracterizaram-se por um ecletismo sem cânones fixos estabelecidos. Nos Estados Unidos, para onde emigraram os criadores da Bauhaus, a influência destes foi decisiva. Aalto daria continuidade a sua escola, junto com outros arquitetos nórdicos, como o dinamarquês Jörn Utzon. A obra de Le Corbusier, particularmente seu projeto da nova cidade de Chandigarh na Índia, durante a década de 1950, foi determinante para os arquitetos do Terceiro Mundo. Seus ensinamentos ficaram patentes no traçado de Brasília, criada por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. O Japão desenvolveu propostas muito originais, como a arquitetura molecular de Kurokawa Noriaki e o chamado "novo brutalismo" de Tange Kenzo. O certo, porém, é que mais de oitenta por cento dos edifícios erigidos desde 1960 pertencem à chamada "arquitetura massificada", própria dos subúrbios das grandes cidades, e que as idéias desenvolvidas pelos novos criadores freqüentemente permanecem distantes da maior parte da população urbana.

    Arquitetura no Brasil

    Período colonial. Por força das próprias necessidades do processo de colonização, os primeiros projetos arquitetônicos realizados no Brasil tinham por objetivo a defesa da nova terra. Para a Bahia veio, junto com o governador-geral Tomé de Sousa, o arquiteto português Luís Dias, que projetou e executou em Salvador os muros e dois baluartes nos extremos da cidade, além dos edifícios da alfândega, primitiva casa da câmara e cadeia.

    Um outro arquiteto vindo de Portugal, Francisco Dias, era sacerdote da Companhia de Jesus e foi o responsável, na década de 1580, pelo risco e construção das igrejas e colégios de Olinda, Rio de Janeiro (no morro do Castelo) e da igreja do Colégio da Bahia, hoje catedral de Salvador. As obras dessa fase, de caráter religioso, são arroladas como de estilo jesuítico, com o qual começava a implantação do barroco no país.

    No século XVII o maior nome é o do engenheiro português Francisco Frias de Mesquita, que construiu o forte da Laje, no Recife, o do Mar ou de São Marcelo, em Salvador, e principiou, segundo seu próprio risco, o mosteiro de São Bento, monumento arquitetônico do Rio de Janeiro. É ainda do começo do século XVII o projeto do belo convento de Santo Antônio, na mesma cidade e da autoria de frei Francisco dos Santos.

    Com a expansão da economia açucareira, surgiram as duas unidades arquitetônicas contrastantes que mais caracterizaram a estrutura social do período, a casa-grande e a senzala, reflexos de um desequilíbrio que percorre toda a história da sociedade brasileira, seus problemas e soluções habitacionais. Destacaram-se então diversos arquitetos e engenheiros, sobretudo frei Macário de São João, autor da planta básica e fachadas originais da Santa Casa da Misericórdia de Salvador. Foi também quem projetou o mosteiro de São Bento da mesma cidade e o convento e igreja de Santa Teresa, no Rio de Janeiro.

    Quando a economia brasileira entrou no chamado ciclo do ouro, no século XVIII, e a capital transferiu-se para o Rio de Janeiro, uma das principais decorrências da riqueza crescente foi o barroco na arquitetura. Numerosos templos foram construídos, grande parte deles com profusa ornamentação, revestida de ouro, e rica estatuária. Sobressaiu em várias dessas obras o arquiteto e escultor português Manuel Francisco Lisboa. Seu filho, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, consagrou-se como o mestre do barroco mineiro, que atingiu culminância expressiva nas duas igrejas de São Francisco de Assis, a de Ouro Preto e a de São João del Rei. Seu contemporâneo José Pereira Santos é outro talento que se revelou em Mariana MG (igreja de Nossa Senhora do Rosário, casa da câmara e cadeia).

    Enquanto isso, a arquitetura também se enriquecera em Salvador, onde se construiu a igreja da Ordem Terceira de São Francisco - tida como a de mais rica ornamentação no Brasil, conforme o projeto de Gabriel Ribeiro - e no Rio de Janeiro, onde sobressaiu o engenheiro e militar português José Fernandes Pinto Alpoim, autor de trabalhos como o conjunto para o antigo terreiro do Carmo, hoje praça Quinze de Novembro, inclusive o palácio dos governadores (atual paço da Cidade, concluído em 1743 e durante muito tempo sede dos Correios e Telégrafos) e outro grupo de edificações representadas hoje, tão-somente, pelo famoso arco do Teles. São dessa mesma etapa o aqueduto ou arcos da Carioca e a igreja da Santa Cruz dos Militares, projeto do arquiteto e militar português José Custódio de Sá e Faria.

    Também houve importantes realizações no Nordeste, em Recife e Olinda, e no Norte, no Pará, a cargo do arquiteto italiano Antônio José Landi, de estilo que imprimia curiosa reforma neoclássica às tendências já existentes na região. Landi trabalhou em muitos outros projetos de igreja, assim como no palácio do governo de Belém PA, o maior edifício civil do período colonial.

    Missão francesa. A transferência em 1808 da corte de D. João VI para o Rio de Janeiro, com a vinda da missão artística francesa, em que se distinguia o arquiteto neoclássico Grandjean de Montigny, alterou bastante as perspectivas da arquitetura no Brasil. Deve-se a Grandjean o projeto do edifício da praça do Comércio, mais tarde prédio da Alfândega e atual 2º Tribunal do Júri. Sua influência perdurou por muito tempo e alguns de seus discípulos realizaram obras notáveis, como é o caso de Bettencourt da Silva (Instituto dos Cegos, hoje Instituto Benjamin Constant, Rio de Janeiro), J. Cândido Guilhobel (Santa Casa da Misericórdia, Rio de Janeiro), Francisco Marcelino de Sousa Aguiar (prédio da Biblioteca Nacional, também no Rio de Janeiro), José Maria Jacinto Rabelo, o francês Pedro José Pezerat e o alemão Júlio Frederico Köler.

    Em todo o Brasil dessa época, e principalmente na segunda metade do século, fez-se igualmente constante a presença dos padrões europeus, que se difundiam por todo o mundo e levavam as marcas explícitas da primeira revolução industrial, como o palácio de Cristal inaugurado em 1851 em Londres e que inspirou a construção do mesmo nome feita em Petrópolis RJ, em 1884. Ao mesmo tempo, profundas alterações da vida econômica e social, como a abolição da escravatura, tiveram inevitáveis conseqüências no desenvolvimento da arquitetura. O espaço residencial, por exemplo, tornou-se de tal modo caro, que as classes dominantes passaram a importar soluções de outros países e o que já havia de caracteristicamente brasileiro ou adequado ao clima, às condições vigentes, deu lugar a imitações ora mais, ora menos elegantes dos modelos europeus.

    Século XX - Nas primeiras décadas, manteve-se e até se acentuou a tendência à cópia ou arremedo dos estilos consagrados na Europa. Edifícios neoclássicos, góticos, florentinos, normandos e até mouriscos, como o do Instituto Osvaldo Cruz (Rio de Janeiro), inseriram-se na paisagem urbana brasileira sob a classificação geral de ecletismo, pluralidade a que o escritor Monteiro Lobato se referiu como carnaval arquitetônico.

    Diversos engenheiros e arquitetos ficaram conhecidos por obras desse tipo, como o francês Victor Dubugras, autor de um art nouveau tardio e deslocado, o americano Barry Parks, a quem se devem as experiências dos bairros-jardins da cidade de São Paulo, Gastão Baiana, Heitor de Melo e o espanhol Morales de los Rios, que construiu, no Rio de Janeiro, o edifício da Escola Nacional de Belas-Artes, o prédio do antigo hotel Avenida etc.

    A importação indiscriminada despertou uma atitude de oposição no movimento denominado neocolonial, representado pelo precursor Ricardo Severo e por José Mariano Filho, seu maior incentivador e patrono. No início, tiveram o apoio de Lúcio Costa que, pouco depois, no meio de ruidoso debate nos jornais, denunciou o formalismo romântico e algo anacrônico da proposta. Paralelamente, na Europa e nos Estados Unidos a arquitetura moderna firmava suas bases com as contribuições de Le Corbusier, Gropius, Mies van der Rohe, Frank Lloyd Wright e outros pioneiros da revolução arquitetônica do século XX, uma das maiores de todos os tempos.

    O primeiro divulgador desses novos horizontes no Brasil foi o arquiteto de origem russa Gregori Warchavchik, que publicou em 1925 o "Manifesto da arquitetura funcional" e dois anos depois escandalizou São Paulo com "sua primeira casa futurista". Combatido juntamente com Flávio de Carvalho, que disputou com um "projeto moderno" o concurso para o novo palácio do governo de São Paulo, Warchavchik abriu à visitação pública a exposição de uma casa modernista para a qual concebera até o mobiliário e onde expôs trabalhos dos artistas da Semana da Arte Moderna de 1922: Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Lasar Segall e Oswald de Andrade.

    No fim do ano de 1929, Le Corbusier visitou o Rio de Janeiro e São Paulo, fez conferências, apresentou suas concepções, discutiu o planejamento urbano ante a explosão demográfica. Suas idéias causaram impacto e levaram a que as teses de Warchavchik e seus companheiros prevalecessem sobre as dos "neocoloniais" no IV Congresso Pan-Americano de 1930.

    Essa atmosfera renovadora encontrava ressonância em todos os setores da vida nacional, que passava por uma de suas fases mais fecundas, com transformações significativas que tanto propiciaram a Semana de Arte Moderna como a revolução de 1930. O governo Getúlio Vargas, decidido a mudar os padrões existentes no terreno da arquitetura, entregou a direção da Escola de Belas-Artes a Lúcio Costa, que propôs reformas radicais, as quais lhe valeram demoradas resistências acadêmicas. Quando as novas idéias finalmente triunfaram, iniciou-se o período denominado "heróico" da arquitetura brasileira, em que se revelaram personalidades como Afonso Eduardo Reidy, Luís Nunes, os irmãos Marcelo e Milton Roberto, Rino Levi.

    Ainda houve, porém, vacilações e obstáculos. Em 1935, um júri de orientação conservadora afastou do concurso para escolha do projeto para o edifício do Ministério da Educação e Saúde todos os trabalhos dos jovens arquitetos de tendência renovadora, premiando somente os de concepção acadêmica. Um episódio inesperado alterou a situação: o ministro da Educação em exercício, Gustavo Capanema, apoiado por uma assessoria que reunira, entre outros, Rodrigo Melo Franco de Andrade, Mário de Andrade, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, decidiu pagar os prêmios aos vencedores mas em seguida solicitou a Lúcio Costa, um dos desclassificados no concurso, o novo projeto para o edifício.

    Lúcio Costa obteve do ministro a extensão do convite aos demais classificados e sob sua coordenação foi formada uma equipe com os arquitetos Afonso E. Reidy, Carlos Leão, Ernani Mendes de Vasconcelos, Jorge M. Moreira e Oscar Niemeyer. Concluído o trabalho preliminar (maio de 1936), Lúcio Costa sugeriu ao ministro Capanema que convidasse Le Corbusier para vir opinar sobre o novo projeto. Le Corbusier, então com 49 anos, permaneceu um mês no Rio de Janeiro trabalhando com aquela equipe de jovens, até se definir o projeto final, considerado um dos marcos decisivos da moderna arquitetura brasileira. Foram construídos pouco depois, no Rio de Janeiro, a sede da Associação Brasileira de Imprensa (1936), dos irmãos Roberto, e a Obra do Berço, primeiro projeto executado (1937) de Oscar Niemeyer.

    Nessa mesma época Luís Nunes transferiu-se para Recife, onde liderou uma fértil experiência a convite do governador do estado: organizou a diretoria de arquitetura com uma equipe composta de Joaquim Cardozo, Francisco Saturnino de Brito, Aníbal Melo Pinto, Sérgio Magalhães, Di Cavalcanti, Augusto Rodrigues e Roberto Burle Marx. Foram então executados os primeiros trabalhos de tendência moderna do Nordeste brasileiro: o reservatório de água de Olinda, o Hospital da Brigada Militar de Pernambuco, a Escola Rural Alberto Torres e a prefeitura municipal de Recife.

    Uma das contribuições mais interessantes desse período, e que mais tarde se incorporou à arquitetura brasileira, foi a redescoberta do bloco de cimento vazado, usado comumente cheio de argamassa para alvenaria e que a equipe de Luís Nunes passou a empregar em sua aparência natural, como simples e prático quebra-sol (mais tarde conhecido como combogó ou cobogó). Na década de 1940, novos nomes enriqueceram o cenário arquitetônico brasileiro, como Henrique Mindlin, Atílio Correia Lima, Vilanova Artigas, Paulo Antunes Ribeiro, Ari Garcia Rosa, Hélio Uchoa e Aldari Toledo.

    Uma série de obras de alto significado consagraram seus autores e chamaram a atenção do mundo para a arquitetura que se fazia no Brasil: o conjunto de Pampulha, em Belo Horizonte, de Oscar Niemeyer; o pavilhão da Feira Internacional de Nova York, de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer; já na década de 1950, o conjunto de edifícios do parque Guinle, no Rio de Janeiro, de Lúcio Costa, o monumento aos mortos da segunda guerra mundial, no Rio de Janeiro, de Marcos Konder Neto e Hélio Ribas Marinho (1957).

    Em 1958 a estrela de ouro da Feira Internacional de Bruxelas foi outorgada ao carioca Sérgio Bernardes, por seu projeto para o pavilhão brasileiro. Transcorria, já na metade, o governo de Juscelino Kubitschek, e sua iniciativa de construir Brasília, para fazê-la a capital do país, teve imensa repercussão sobre os rumos da arquitetura brasileira. Três anos após a escolha, em concurso público, do plano piloto de Lúcio Costa, a cidade foi inaugurada e pela primeira vez se pôde observar uma vinculação direta da arquitetura com o urbanismo.

    Os projetos dos edifícios governamentais foram confiados a Oscar Niemeyer, que os harmonizou de maneira excepcional com a paisagem urbana proposta por Lúcio Costa, criando formas de excepcional beleza plástica, como o palácio da Alvorada (cujas colunas se tornaram logomarca da capital no país inteiro) e sua capela, o palácio do Planalto, o conjunto do Congresso Nacional - que formou a chamada praça dos Três Poderes - e mais tarde o teatro Nacional, a catedral e o palácio Itamarati, sede do Ministério das Relações Exteriores.

    Depois dessa fase do começo de Brasília, as novas gerações de arquitetos afastaram-se bastante do lirismo pessoal de Niemeyer, voltando-se principalmente para as experiências com novos materiais.

     

     

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