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    Ciclo do Cacau

    Levado do Pará, o cacau chegou à Bahia na segunda metade do século XVIII, dando origem a um ciclo econômico que acarretou profundas mutações sociais. E tão violentas foram as disputas de terras para plantio do cacau que já se disse que as fazendas do sul da Bahia foram adubadas com sangue humano. Na floresta amazônica, os cacauais nativos são parte da mata virgem. Desenvolvendo-se ao acaso, sem os cuidados necessários e de mistura com árvores as mais variadas, sua produção era pequena, não chegando a pesar na produção mundial e pouco se fazendo sentir na brasileira.

     

    No sul da Bahia, onde até então alguns engenhos de açúcar e inexpressivas roças de café sustentavam os habitantes, o cacau encontrou um habitat perfeito, graças aos ricos solos de massapê e à umidade ambiental resultante de chuvas muito freqüentes. As facilidades de transporte, por via fluvial, e a alta cotação do cacau no mercado externo foram fatores que pesaram para o incremento do cultivo dessa nova fonte de lucro.

    Coronéis, jagunços e grapiúnas. A conquista das terras no sul da Bahia motivou lutas sanguinárias que se alastraram por toda a região -- em lugares como Itabuna, Belmonte, Coaraci, Itajuípe, Una e o porto de Ilhéus, escoadouro das grandes safras. Essas disputas entre os grandes proprietários de terras ou coronéis do cacau, travadas por verdadeiros exércitos de jagunços a soldo, prolongaram-se até as duas primeiras décadas do século XX e levaram ao estabelecimento de imensos latifúndios. Em seus limites, o poder dos coronéis era total, permitindo-lhes decidir desde a comercialização do cacau até as eventuais tocaias que seus capangas executariam contra os adversários molestos.

    Além de resolverem pela força as questões de terras e as pendências políticas, os jagunços geralmente também trabalhavam nas fazendas, sob condições apenas ligeiramente melhores que as dos lavradores ditos "alugados". Estes, quase sempre flagelados da seca que desciam para o sul da Bahia em busca das promessas da zona cacaueira, incumbiam-se da derrubada das matas e do plantio das mudas, sendo vítimas de um sistema feudal de exploração. Obrigados a comprar nos armazéns das fazendas suas roupas, víveres e as ferramentas que usavam, os trabalhadores recém-chegados submetiam-se a pesadas dívidas que só faziam crescer com o tempo. Somente a partir da revolução de 1930, cujas repercussões motivaram sérias lutas dos assalariados, a exploração da mão-de-obra servil começou a tornar-se menos abusiva.

    Apesar da rudeza das condições de trabalho, o ciclo do cacau, com suas possibilidades de ganhos, atraiu gente de toda parte. Aos brasileiros, sobretudo sergipanos, que migravam para o sul da Bahia juntaram-se estrangeiros de procedências diversas -- como árabes, sírios e libaneses, todos tratados indistintamente de "turcos" ou "gringos" -- que desembarcavam em Ilhéus ávidos de fortuna. A atividade comercial, implantada pelos mascates estrangeiros, que a princípio percorriam as plantações em lombo de burro para ofertar suas mercadorias, solidificou-se pouco a pouco e floresceu em toda a região.

    A época da conquista das terras e da disseminação do cacau, com o consequente surgimento de povoados e pequenas cidades, deixou marcas bem definidas na psicologia e nos hábitos do povo, dando ao sul da Bahia um caráter próprio, bem diferente do que prevalece, por exemplo, na capital do estado e no Recôncavo. O amor à coragem, a entrega à aventura e a crença no progresso são considerados traços típicos dos grapiúnas, termo pelo qual são desde então designados os habitantes do sul da Bahia. Não raro, tais habilidades originaram-se, em face do significativo afluxo de estrangeiros, de gamas variadas de miscigenação racial.

    Os reflexos da crise econômica mundial de 1929, assim como, no plano interno, os da revolução de 1930, influíram nos destinos da lavoura cacaueira, traduzindo-se com mais clareza, nos primeiros momentos, por sucessivas baixas nos preços do produto. Com o desaparecimento da maior parte das oligarquias, os latifúndios fragmentaram-se, por motivos de herança ou simplesmente econômicos, em fazendas de menor porte e organização menos arcaica. Passada a era do caxixe, nome pelo qual eram designadas as invasões de terras ou as muitas aquisições ilícitas, desapareceram de igual modo os jagunços. A criação do Instituto do Cacau da Bahia, em moldes de cooperativa, em 1931, e a fundação do primeiro sindicato de trabalhadores rurais reconhecido pelo governo, que data da mesma época, foram fatos relevantes para a transformação das relações de trabalho na zona de produção cacaueira.

    O ciclo do cacau, com suas consequências na esfera social, deu origem a um vasto filão temático que a literatura brasileira explorou e se insere dentro do realismo nordestino. É sobretudo na ficção que as marcas da saga do cacau são mais visíveis.

    Incluem-se nesse caso três romances de Jorge Amado, da primeira fase de sua obra, retratando as disputas pela posse das terras e os problemas humanos a ela relacionados: Cacau, Terras do sem fim e São Jorge dos Ilhéus. Idêntica temática foi seguida por Adonias Filho, autor de Servos da morte, Memórias de Lázaro e Corpo vivo, romances ambientados na região cacaueira. Histórias da gente do cacau motivaram ainda o escritor Hélio Pólvora, que as enfeixou em dois volumes de contos, Galos da aurora e A mulher na janela.

    Matéria publicada na EmDiv Magazine Kindle Edition - Maio 2011

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