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    Maranhão - Estado do Nordeste Brasileiro

    Juçara, buriti, bacaba, carnaúba, babaçu... O Maranhão é conhecido como "terra das palmeiras", cognome que lhe foi dado por Fróis de Abreu, num livro de 1931, mas já em 1614 Claude d'Abbeville gabava: "É um verdadeiro jardim de palmeiras." E Gonçalves Dias suspirava, na "Canção do exílio": "Minha terra tem palmeiras..." O estado do Maranhão situa-se na região Nordeste, onde ocupa uma área de 333.366km2. Localizado na área de transição entre o Nordeste e a Amazônia, limita-se ao norte com o oceano Atlântico, a oeste com o Pará, a sudoeste com o Tocantins, e a sudeste e a leste com o Piauí. O Maranhão apresenta as mais diversas características morfológicas, desde a mata amazônica e a caatinga nordestina até a área considerada o único deserto brasileiro, o Parque Nacional de Lençóis Maranhenses - mais de 200km2 de dunas de areia branca e lagoas de água doce, que se evaporam no período da seca.

    De relevo plano, o Maranhão tem 75% do território abaixo de 200m de altura e apenas dez por cento acima de 300m. O quadro geomorfológico é composto por duas unidades: a baixada litorânea e o planalto. Domina na baixada um relevo de colinas e tabuleiros, talhados em arenitos da série Barreiras. Em certas partes do litoral, inclusive na ilha de São Luís, situada no centro do chamado golfão maranhense, esse relevo chega até a linha da costa. Em outras, fica separado do mar por uma faixa de terrenos baixos e planos, sujeita a inundações no período das chuvas. É a planície litorânea propriamente dita, que no fundo do golfão toma o nome de Perises. A leste do golfão maranhense, esses terrenos assumem o caráter de amplos areais com formações de dunas, que integram a costa dos Lençóis, até a baía de Tutóia.

    O planalto ocupa todo o interior do estado com um relevo tabular. Apresenta feição de um conjunto de chapadões talhados em terrenos sedimentares (arenitos xistosos e folhelhos). Nas proximidades do golfão maranhense as elevações alcançam apenas 150 a 200m de altura; mais para o sul, 300 a 400m; e nas proximidades do divisor de águas, entre as bacias do Parnaíba e Tocantins, atingem 600m. Os vales do planalto separam os chapadões uns dos outros por meio de entalhes profundos, e por essa razão os chapadões apresentam escarpas abruptas em contraste com o topo regular.

    Ocorrem no Maranhão três tipos de clima: o tropical superúmido de monção, o tropical com chuvas de outono e o tropical com chuvas de verão. Os três apresentam regimes térmicos semelhantes, com médias anuais elevadas, que variam em torno de 26º C, mas diferem quanto ao comportamento pluviométrico. O primeiro tipo, dominante na parte ocidental do estado, apresenta os totais mais elevados (cerca de 2.000mm anuais); os outros dois apresentam pluviosidade mais reduzida (de 1.250 a 1.500mm anuais) e estação seca bem marcada, e diferem entre si, como seu próprio nome indica, pela época de ocorrência das chuvas.

    Uma vegetação de floresta, campos e cerrados reveste o território maranhense. As florestas ocupam toda a porção noroeste do estado, ou seja, a maior parte da área situada a oeste do rio Itapecuru. Nessas matas ocorre com grande abundância a palmeira do babaçu, produto básico da economia extrativa local. Os campos dominam em torno do golfão maranhense e no litoral ocidental. Os cerrados recobrem as regiões oriental e meridional. Na faixa litorânea, a vegetação assume feições variadas: campos inundáveis, manguezais, formações arbustivas.

    Quase toda a drenagem do estado se faz de sul para norte através de numerosos rios independentes que se dirigem para o Atlântico: Gurupi, Turiaçu, Pindaré, Mearim, Itapecuru e Parnaíba. A sudoeste do estado uma pequena parte do escoamento se faz em direção a oeste. Integram-na pequenos afluentes da margem direita do Tocantins.

    No centro-norte do estado - em toda a região situada em torno do golfão maranhense e ao sul deste (vales dos rios Pindaré, Mearim, Grajaú e Itapecuru) - registram-se as mais elevadas densidades demográficas. No restante do estado o povoamento é escasso. É forte a proporção de negros e mulatos, além de remanescentes indígenas dos grupos tupis e jês.

    Com exceção do extremo ocidental do estado, que pertence à área de influência de Belém, todo o território maranhense é parte integrante da região polarizada por Recife. A ação econômica da metrópole pernambucana se exerce no Maranhão por intermédio de São Luís, para a maior parte do território estadual, e de Teresina, capital do Piauí, para alguns municípios situados junto à divisa com esse estado.

    O índice de urbanização do Maranhão é baixo, com cerca de um terço da população nas áreas urbanas. À capital do estado, São Luís, seguem-se em importância Imperatriz, Caxias, Codó e Bacabal. Os demais centros urbanos são modestos: Santa Luzia, Barra do Corda, Timon, Pedreiras, Monção, Açailândia, Santa Inês, Coroatá, Penalva são os de maior população.

    A principal região econômica do Maranhão é o centro-norte, onde se localizam os vales dos rios Pindaré, Mearim e Itapecuru. Ali se concentra a maior parte das atividades agrícolas, pastoris e extrativas do estado. O vale do Itapecuru foi ocupado nos séculos XVIII e XIX pela cultura algodoeira. Na segunda metade do século XX, passou a dominar nessa região a cultura do arroz, secundada pela do milho, da mandioca, do feijão e do algodão arbóreo. Além de principal produtor de arroz do estado, o vale do Itapecuru é também o maior produtor de coco de babaçu e tem o segundo rebanho bovino do estado. Imigrantes nordestinos que repovoaram os sertões do Mearim e do Pindaré, e também o caboclo maranhense, dedicaram-se à rizicultura com tal afinco que logo a produção passou da casa dos milhares para a dos milhões de sacas, e o arroz voltou a ser exportado para o resto do país.

    Os vales dos rios Mearim e Pindaré constituem áreas de ocupação mais recente que a do Itapecuru. Para lá acorreram migrantes do próprio Maranhão e provenientes de outros estados nordestinos. A economia dessa região baseia-se nas culturas de milho e arroz e na extração do coco de babaçu. Ainda na região centro-norte encontram-se os campos de Perises, principal área criatória do estado.

    No restante do estado desenvolvem-se as mesmas atividades do centro-norte, só que em escala mais reduzida. A atividade agrícola quase sempre se restringe a culturas de subsistência. O principal produto vegetal do Maranhão é o babaçu, empregado na fabricação de um óleo finíssimo, comestível e de alto valor industrial, como lubrificante e combustível, ou como insumo para a saboaria. A torta, resíduo da extração do óleo, é transformada em farelo para alimentação do gado bovino e suíno, ou usada como adubo nitrogenado. As cascas do coco dão um ótimo carvão, com elevado teor de carbono, utilizado como redutor de minério. Por um processo de destilação físico-química, as cascas produzem também alcatrão, acetatos, ácido acético e álcool.

    As principais atividades extrativas do Maranhão são a exploração de sal marinho e o garimpo de ouro e diamantes, na região do baixo rio Gurupi.

    Os portugueses ainda não haviam atingido o Maranhão quando a terra foi doada pelo rei de Portugal D. João III, em 1535, a três fidalgos: João de Barros, Fernand'Álvares de Andrade e Aires da Cunha. Os dois primeiros traçaram o plano para tomar posse da capitania e confiaram sua execução a Aires da Cunha, que partiu para o Brasil, no mesmo ano da doação, com dez veleiros, 900 homens de armas e 13O a cavalo. Entretanto, a frota naufragou nas costas maranhenses e o capitão morreu. Os sobreviventes teriam fundado uma povoação, Nazaré, e começado a explorar a terra pelos rios, mas os índios não lhes facilitaram essa ocupação. Da povoação não restou traço, quando esses portugueses se foram.

    Em 1539 outro fidalgo lusitano, Luís de Melo da Silva, também naufragou no litoral maranhense, mas voltou em 1554. João de Barros, em 1555, enviou seus filhos João e Jerônimo à donataria, quando os franceses já ali haviam penetrado. Segundo relato de Jerônimo ao rei de Portugal, haviam estado na capitania 17 naus de franceses, que construíram casas de pedra e comerciavam com os índios.

    As naus francesas continuaram a afluir no século XVI. Da tripulação dos três navios que se dirigiam ao Maranhão sob o comando do capitão Jacques Riffault, muita gente ficou na terra, depois do malogro da expedição. Um deles, Charles Des Vaux, aprendeu a língua dos índios e prometeu trazer-lhes outros franceses para governá-los e defendê-los. De volta à França, Des Vaux conseguiu do rei Henrique IV que Daniel de la Touche, senhor de La Ravardière, o acompanhasse ao Maranhão, para verificar as maravilhas que lhe narrara, e prometeu-lhe a conquista da nova terra para a França.

    Morto Henrique IV, La Ravardière voltou à França, onde lutou durante 15 anos pelo projeto de fundação da chamada França Equinocial. François de Razilly, senhor de Aumelles e Razilly, e Nicolas de Harlay, senhor de Sancy, barão de Molle e de Grosbois, interessaram-se pelo empreendimento. A rainha regente, Maria de Medici, autorizou a participação de frades capuchinhos na expedição.

    A esquadra francesa, composta de três navios, partiu do porto de Cancale, na Bretanha, sob a direção de La Ravardière e Razilly, ambos solidários com Nicolas de Harlay, e fundeou em 26 de julho de 1612 numa enseada maranhense. Deram o nome de Sant'Ana à pequena ilha onde ancoraram, em homenagem à santa do dia, e ali erigiram a primeira cruz em solo maranhense. Ficaram nessa ilha, enquanto Charles Des Vaux entrava em contato com os índios na ilha grande, que depois se chamou do Maranhão e mais tarde de São Luís. Lá, em 12 de agosto, celebrou-se a primeira missa, escolheu-se o lugar do primeiro forte e, com a ajuda dos índios, construíram a primeira capela. Em 8 de setembro foi erigida a cruz na ilha de Sant'Ana, benzeu-se a terra e batizou-se o forte com o nome de São Luís, em homenagem ao rei santo Luís XIII. Este foi o nascimento oficial da atual capital do Maranhão.

    Dois dos quatro franciscanos capuchinhos que viajaram na frota francesa foram os primeiros a contar em livro esses dias iniciais da história maranhense. Claude d'Abbeville, em sua Histoire de la mission des pères capucins en l'isle de Maragnan et terres circonvoisines (1614; História da missão dos padres capuchinhos na ilha de Maranhão e terras circunvizinhas), revelou os primeiros anais da região, apresentada como um paraíso terrestre. Essa visão paradisíaca foi também a do capuchinho Yves d'Évreux, no livro Suite d'histoire des choses plus mémorables advenues en Maragnan, ès annés 1613 et 1614 (1615; Continuação da história das coisas mais memoráveis acontecidas no Maranhão, nos anos de 1613 e 1614), em que relata os costumes e leis sociais e enriquece o conhecimento da língua nativa, para a qual verteu as principais orações cristãs.

    Os franceses não se limitaram à tarefa colonizadora: levaram a Paris índios do Maranhão. O bispo de Paris batizou três índios - Itapucu, depois chamado Luís Maria, que acompanhou os outros índios ao Louvre e discursou ao rei na sua língua; Uaruajá (Luís Henrique) e Japuaí (Luís de São João), de quem foram padrinhos Luís XIII e Maria de Medici.

    Os relatos dos frades franciscanos davam também o forte de São Luís como inconquistável, mesmo que fosse atacado por uma armada real. Enquanto isso, espanhóis e portugueses também buscavam conquistar a terra. Em 19 de novembro de 1614, o português Jerônimo de Albuquerque, no comando de naus e homens, venceu os franceses em Guaxenduba. Os franceses na ilha e os portugueses no continente ensaiaram uma trégua e enviaram emissários a Madri e a Paris, com a proposta: a ilha seria dos franceses, e o continente, dos portugueses.

    Em julho de 1615, Francisco Caldeira de Castelo Branco intimou La Ravardière a abandonar a terra conquistada. Jerônimo de Albuquerque transferiu-se para a ilha, fundou o forte de São José e iniciou a luta. Em 17 de outubro, nove navios sob o comando de Alexandre de Moura, com mais de 900 homens, armas, dinheiro, plantas e gado, chegaram à baía de São Marcos, num desafio à fortaleza invencível dos franceses. Enquanto isso, Jerônimo de Albuquerque atacava por terra. La Ravardière não opôs resistência: em 3 de novembro entregou a colônia, o forte, os navios e as armas. De Pernambuco, o francês foi para a Lisboa, onde esteve preso antes de retornar à França.

    Simão Estácio Silveira chegou ao Maranhão em 1619, como capitão de uma das naves da expedição de Jorge Lemos de Bittencourt, que trazia 300 casais açorianos. Foi o primeiro a se dirigir aos pobres de Portugal - possíveis emigrantes para o Brasil - a fim de atraí-los à terra, a que depressa se afeiçoou. Na sua Relação sumária das coisas do Maranhão, publicada em Lisboa, em 1624, descreveu o céu saudável, as águas puras, o chão fértil da terra.

    Em 1624 chegou frei Cristóvão de Lisboa, custódio dos capuchos, acompanhado de 13 frades. Queimou livros franceses para apagar o traço que restava da França Equinocial. Compôs a primeira história natural brasileira, História dos animais e árvores do Maranhão (só publicada em 1967, pelo Arquivo Histórico Ultramarino), e os quatro volumes de uma História natural e moral do Maranhão, que se perdeu no terremoto de Lisboa.

    Frei Cristóvão iniciou a construção de um mosteiro em São Luís. Jerônimo de Albuquerque, que a seu nome acrescentou o de Maranhão, começou a erguer a casa que seria o palácio dos governadores. Os jesuítas ampliaram a ermida que fora dos capuchinhos franceses, a qual foi ocupada mais tarde pelo colégio, depois reformado pelo padre Antônio Vieira. Em 1626 o padre Luís Figueira ergueu a primeira igreja, dedicada a Nossa Senhora da Luz.

    Por essa época esteve preso no Maranhão o aventureiro Gedeon Morris, que depois seria comandante da guarnição flamenga do Ceará. As notícias por ele transmitidas sobre as condições de vida em São Luís, segundo seu entender mal defendida pelos lusitanos, foram ouvidas com interesse pelos dominadores do Recife. A paz entre Portugal e Holanda estava firmada quando em novembro de 1641 uma frota holandesa, comandada por Pieter Baas, entrou pela barra de São Luís, desceu pelo Desterro e saqueou a cidade. O governador Bento Maciel Parente, veterano do sertão e matador de índios, foi preso sem resistência.

    Dez meses depois, os lavradores portugueses, em conspiração com os jesuítas e ajudados por mamelucos e índios fiéis, se levantaram contra a dominação holandesa. Antônio Muniz Barreiros, que chefiava a revolta, morreu em combate e foi substituído por outro senhor de engenho, Antônio Teixeira de Melo. O outeiro da Cruz, naquele tempo fora das portas da cidade, foi cenário dos encontros mais cruéis. Os holandeses saquearam os moradores que ainda permaneciam no pequeno burgo, lançaram-lhe as mulheres nuas no mato e entregaram os homens aos índios do Ceará, que os sacrificaram ou mandaram como escravos aos ingleses de Barbados, que se recusaram a comprá-los.

    Em Tapuitapera, hoje Alcântara, no continente, Teixeira de Melo recebeu emissários do príncipe Maurício de Nassau, que lhe ofereceu o governo dos portugueses do Maranhão, desde que se recolhesse a São Luís. Recusada a proposta, a luta prosseguiu até fevereiro de 1644, quando os holandeses se retiraram após um período de 27 meses de ocupação intranqüila, dos quais 17 de lutas.

    Restou dos holandeses a ruína do casarão onde morou o governador Pieter Baas, derrubado em 1939. A vista do porto e a planta da cidade foram registradas por Frans Post em desenhos cujos originais se encontram no Museu Britânico. As gravuras foram reproduzidas no grande livro de Gaspar Barlaeus sobre o Brasil holandês e copiadas depois para a obra de santa Teresa sobre as guerras de Portugal com a Holanda.

    Em 1682, criou-se a Companhia de Comércio do Maranhão. Era a receita da época para desenvolver as regiões colonizadas: o monopólio pelo sistema de estanco, que assegurava o privilégio de vender gêneros de primeira necessidade; a exclusividade - e a obrigação - de compra de toda a produção do estado; e o compromisso de fornecer escravos africanos, mais próprios para as duras tarefas da lavoura em chão equatorial, como forma de compensar a proibição da caça ao índio.

    O sistema, no entanto, degenerou: para comprar, o representante da companhia pagava pouco, enquanto para vender, cobrava muito; os jesuítas persistiam em lutar contra a escravidão do índio; os pesos e medidas eram fraudados; os escravos negros prometidos não apareciam; e as fazendas e os gêneros eram de má qualidade.

    A indignação estourou em revolta. O principal cabeça do movimento foi Manuel Beckmann, nascido em Lisboa, de pai alemão e mãe portuguesa, senhor de engenho no Mearim. Consta que os conspiradores assinaram um papel em círculo, para que nenhum deles pudesse ser acusado de chefe do motim. Beckmann misturou o instinto de liberdade do comércio com a ferocidade do preconceito escravista: o índio era presa fácil. O capitão-mor Baltasar Fernandes viu-se preso em casa, sob custódia da mulher. Os jesuítas, em seu colégio, ficaram incomunicáveis, e as portas dos armazéns de estanco foram seladas.

    A Junta dos Três Estados (clero, nobreza e povo), que então se constituiu, não pretendia a independência. Um procurador enviado ao reino, Tomás Beckmann, irmão de Manuel, explicou ao rei que não se levantavam contra ele. Queriam apenas liberdade de comércio -- razão pela qual haviam fechado os armazéns do estanco -- e de prear índios, por isso expulsaram os jesuítas, embarcados em dois navios.

    Criou-se uma guarda cívica e demitiram-se funcionários de lealdade duvidosa. Beckmann mandou embaixador a Belém e foi ele próprio a Alcântara, mas não obteve apoio nos dois locais. Recusou proposta de suborno do governador Sá e Meneses, mas a chama do levante começou a declinar. Em 15 de maio de 1685 aportou a São Luís o novo governador, Gomes Freire de Andrade, com 150 soldados, que entraram em confraternização com os soldados da terra. Os principais conjurados fugiram. Beckmann assistiu ao desembarque e só no dia seguinte se escondeu em seu engenho, onde foi preso, por traição de Lázaro de Melo, seu afilhado.

    A devassa aberta concluiu que o sistema de estanco fora introduzido e mantido com fraude, dolo e violência. Contra Jorge de Sampaio, Francisco Deiró e Manuel Beckmann foi porém lavrada sentença, assinada por Gomes Freire, que os declarava culpados de crime contra a autoridade do rei. Deiró fugiu e foi enforcado em efígie. Sampaio e Beckmann padeceram o suplício corajosamente. Gomes Freire declarou extinto o contrato do estanco, devolveu os jesuítas ao Maranhão e governou com acerto.

    Ao iniciar-se o século XVIII, os jesuítas continuavam dispondo os índios em aldeias. As ordens do rei oscilavam entre guerrear os gentios e não molestar os já apaziguados. Em 1718 chegou o capitão-mor Bernardo Pereira Berredo. Até 1749, quando o cobre ainda não era explorado no Brasil, serviram de moeda novelos de algodão ou varas de pano. A partir de 1755 os índios passaram a viver sob um novo regime: foram declarados livres, embora pudessem ser requisitados para servir, mas nesse caso o colono ficava obrigado a fornecer-lhes comida e uma pequena quantia em dinheiro. Extinta a Companhia de Jesus em 1760, 86 padres foram presos e embarcados, o que provocou o fechamento das escolas, o retraimento das iniciativas de povoamento e o abandono da língua geral.

    O último governador colonial foi o marechal do Exército português Bernardo da Silveira Pinto da Fonseca. Excepcional administrador, em seu governo foi impresso em tipografia instalada por sua iniciativa o primeiro jornal maranhense, O Conciliador do Maranhão. No entanto, por essa época o sentimento nativista já prenunciava a independência. Confluíram para ela duas forças: uma, decisiva, a rebelião local, apoiada por piauienses e sertanejos do Ceará, que repetiram os caminhos trilhados 300 anos antes pelos índios da serra do Ibiapaba; e outra, circunstancial, a presença dos navios de Lord Thomas Cochrane, que fora contratado em 1823 pelo imperador D. Pedro I para comandar a esquadra brasileira contra os portugueses. A presença do famoso almirante desestimulou qualquer tentativa de resistência por parte dos portugueses de São Luís.

    Os emancipadores já haviam dominado a terra até a orla marítima. Cochrane completou a vitória e assegurou a independência ao entrar no porto e obrigar à rendição os reforços portugueses chegados dias antes. Iniciou-se uma fase de disputas pelo governo, marcada pelo contraste entre a exaltação nativista e a moderação conservadora, que redundaram em violências contra os portugueses. O principal representante da linha radical foi o advogado provisionado Miguel Inácio dos Santos Freire Bruce, que chegou a decretar a expulsão de todos os portugueses, reduzida depois àqueles que não fossem proprietários ou não tivessem profissão.

    Bruce, ainda no cargo de primeiro presidente nomeado da província, foi acusado de veicular idéias republicanas. Deposto e preso por Lord Cochrane, foi enviado ao Rio de Janeiro, submetido a julgamento e absolvido. A tendência moderada teve como principal expoente José Félix Pereira de Burgos, que havia sido designado primeiro comandante de armas ainda na vila de Itapecuru. Passou-se então para o lado dos independentes e lhes assegurou o domínio de todo o vale, com o que restringiu a ação dos portugueses.

    O bispo D. Joaquim de Nazareth, amigo pessoal de D. João VI e de Pedro I, defendeu a união direta com Portugal e a separação do que chamava de "províncias austrais". Mais forte que o nacionalismo liberal de Bruce era o nativismo exaltado, que confinava com a aspiração republicana. Seus principais representantes eram o boiadeiro baiano Salvador Cardoso de Oliveira, primeiro a levantar-se pela independência e a juntar-se a piauienses e cearenses, de outro lado do Parnaíba; Domingos da Silva, o Matrauá, que participou da Balaiada; e o capitão-do-mato João Ferreira do Couto, que à frente de uma guerrilha de quarenta homens entrou em Manga do Iguará e assassinou o comandante do contingente local.

    Em 12 de março de 1823, Salvador Cardoso de Oliveira reuniu-se aos independentes do Piauí, e no dia seguinte, com oitenta homens - primeira tropa maranhense a lutar pela independência - participou do combate de Jenipapo. No fim de março, no arraial de São João dos Matões, piauienses e maranhenses, vindos do outro lado do Parnaíba, aclamaram o imperador e juraram a independência. Em 17 de abril, vindo do Piauí, o brigadeiro português João José da Cunha Fidié entrou em Caxias, e em 18 de junho, o tenente-coronel José Félix Pereira de Burgos, comandante geral de Itapecuru-Mirim, passou-se para os independentes e a tropa restante capitulou. De 18 a 20 de julho, Burgos, por meio de uma câmara geral, fez eleger quatro membros para o governo civil, e deixou à capital a indicação de mais três. Ele próprio foi escolhido para governador das armas. Em 23 de julho, o novo governo intimou a junta de São Luís a proclamar a independência e, no dia 10 de agosto, em Caxias, Fidié se demitiu e o tenente-coronel Luís Manuel de Mesquita capitulou.

    Enquanto isso, em São Luís, um conselho reunido pela junta provisória se pronunciou pela independência. Parte da tropa tentou proclamá-la, mas foi recebida a tiros, perto do palácio do governo, pelos soldados fiéis ao comandante português marechal Agostinho de Faria. No dia 14 chegaram sete navios com tropas portuguesas, que fugiam da derrota na Bahia. A junta deu por dissolvida a câmara e comunicou que a tropa se opunha à independência, enquanto deliberava enviar emissários aos chefes independentes para negociar armistício, até que Pedro I e D. João VI resolvessem o caso. Em 26 de junho, o almirante Cochrane entrou no porto de São Luís. Dois dias depois, foi proclamada a independência.

    Os conflitos de interesse, mas sobretudo de sentimentos, entre brasileiros natos e brasileiros por adoção tomaram toda a primeira metade do século. O nativismo foi radical. São Luís foi invadida pela agitação, ao sabor dos fatos políticos. A plebe, caboclos e escravos, não se limitava a assistir aos acontecimentos, mas tomava parte em muitos deles. De 1838 a 1840, a sociedade estremeceu na grande convulsão da balaiada. Vencidos os balaios, o domínio dos brancos se estabilizou e reafirmou-se a estrutura social.

    A partir de 1771 começaram a chegar os primeiros escravos. Os imigrantes portugueses, que em geral se destinavam ao comércio, continuaram a aportar. Os índios, domesticados como caboclos, tornaram-se agregados ou vaqueiros nas fazendas e artífices na capital, onde sofriam a concorrência dos hábeis pretos, escravos ou muitas vezes livres, e dos europeus pobres, que traziam de Portugal e dos demais países da Europa a ciência de um artesanato que dispensa capital.

    Segundo reinado. Para a província, o segundo reinado criou uma prosperidade despreocupada, erguida nos ombros dos escravos, e cortada apenas pelas paixões políticas. Os presidentes chegavam e, mal se habituavam aos costumes da terra, partiam depois da primeira eleição ou com a queda do gabinete. A fama do Maranhão, e sobretudo de São Luís, a beleza de seus sobrados, os requintes de sua "civilidade", faziam da província o lugar ideal para um começo de vida ou uma trégua nos cansaços do ofício. Os partidos, por isso mesmo, mandavam para lá seus representantes ilustres: Paranaguá (o futuro marquês), Leão Veloso, Leitão da Cunha, Lafayette Rodrigues Pereira, Sousa Carvalho, Franklin Dória, Silvino Elvídio Carneiro da Cunha, José Manuel de Freitas.

    A segunda metade do século XIX foi decisiva para a integração do território. Graças, sobretudo, aos esforços de Cândido Mendes de Almeida, decretos imperiais declararam maranhenses os territórios de Carolina (então disputado por Goiás) e do Turiaçu, o que deslocou o limite com o Pará até o Guarani e incorporou definitivamente o noroeste, onde havia quilombos que depois se transformaram em cidades.

    A partir da balaiada, a província entrou na estabilidade política e social, com uma estrutura agrária baseada na escravidão e só de raro em raro desafiada em seus excessos. O ideal republicano, todavia, persistiu. Como vimos, Bruce, o primeiro presidente nomeado por Pedro I, foi deposto e preso por Lord Cochrane sob suspeita de republicano. Acusado, respondeu a conselho de guerra e foi absolvido; mas o fato, por si só, foi expressivo. Os chefes cearenses da Confederação do Equador, que estiveram no Maranhão com as forças expedicionárias, decisivas no processo da independência, enviaram em 1824 emissários aos maranhenses, na convicção de que seu liberalismo os levaria a participar da revolução. Em 1829, foram lidas proclamações republicanas em Pastos Bons.

    O último presidente da província, desembargador Tito Augusto Pereira de Matos, após a queda do império, passou o governo ao tenente-coronel João Luís Tavares, integrante de uma junta de sete cidadãos, cinco deles militares e dois civis, junta que, em 17 de dezembro de 1889, entregou o poder ao primeiro governador nomeado que chegou ao Rio de Janeiro, Pedro Augusto Tavares Júnior. Em 4 de julho de 1891 foi promulgada a primeira constituição política do estado. No ano seguinte, em 28 de julho, promulgou-se nova constituição, emendada em 1898, 1904 e 1919.

    O Maranhão possui grande número de monumentos históricos e arquitetônicos, muitos tombados por lei federal, como o conjunto arquitetônico e paisagístico da cidade de Alcântara e, na capital, da praça Gonçalves Dias, da praça João Francisco Lisboa, do largo fronteiro à igreja de S. José do Desterro; a fonte do Ribeirão; o retábulo do altar-mor da catedral de Nossa Senhora da Vitória; a capela de São José e o portão da quinta das Laranjeiras; e o sambaqui do Pindaí.

    Outros monumentos importantes são, na capital, a pirâmide do Bequimão, a pedra da Memória, homenagem à coroação de D. Pedro II, as casas onde moraram os escritores maranhenses Graça Aranha, Artur Azevedo e Aluízio de Azevedo, as estátuas de João Francisco Lisboa e Gonçalves Dias, o palácio dos Leões, o palácio Arquiepiscopal e o Centro Histórico da praia Grande. Em Alcântara, além dos numerosos sobrados coloniais de azulejos portugueses, há a praça Gomes de Castro, o Farol e o forte de S. Sebastião. Em Caxias, a antiga fábrica de tecelagem, transformada em centro cultural, e as ruínas da época da balaiada, no morro de Alecrim.

    São Luís abriga vários museus, como o de Artes Visuais, com trabalhos de artistas plásticos maranhenses e azulejaria européia do século XIX; o de Arte Sacra; o da Cafua dos Mercês, antigo mercado de escravos; e o Museu Histórico e Artístico do Maranhão. Em Alcântara, há um museu de arte sacra, com imagens e mobiliário dos séculos XVIII e XIX, e o Museu do Folclore, com imagens e estandartes usados na festa do Divino.

    A bela arquitetura colonial de São Luís e de Alcântara, a variedade de restaurantes típicos, a beleza das praias, o belo artesanato, os diversos parques nacionais e estaduais e a moderna rede de hotéis concorrem para tornar o Maranhão um dos estados brasileiros de maior potencialidade turística. Além disso, tanto a capital como as cidades de Alcântara e Caxias apresentam um atraente calendário de eventos. A Festa do Divino, realizada entre maio e junho em Alcântara, é famosa em todo o Brasil; em junho realiza-se a festa folclórica Tambor da Crioula, as festas juninas e o bumba-meu-boi.

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