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    Ceará - Geografia, História e Cultura

    A abolição da escravatura se fez na província do Ceará em 1884, quatro anos antes do 13 de maio. Festejaram os abolicionistas de todo o país e José do Patrocínio deu ao Ceará o nome de "Terra da Luz". D. Pedro II aplaudiu comovido; e até Victor Hugo mandou da França uma saudação aos cearenses.

    Situado na região Nordeste do Brasil, o Ceará ocupa uma superfície de 146.348km2. Banhado pelo oceano Atlântico numa extensão de 538km, tem litoral pouco recortado, onde aparecem planícies costeiras que contêm tabuleiros terciários e praias com dunas, célebres por sua beleza. Limita-se a leste com a Paraíba e o Rio Grande do Norte, ao sul com Pernambuco e a oeste com o Piauí. A capital é Fortaleza.

    Cinco categorias morfológicas caracterizam o relevo cearense: o pediplano, as serras, as chapadas, os tabuleiros litorâneos e as planícies aluviais. O pediplano, feição dominante, constitui uma vasta planura, levemente ondulada, que cai de modo suave de sul para norte e dele surgem elevações esparsas, as serras e chapadas. As serras são maciços montanhosos talhados em rochas cristalinas antigas. As mais importantes são as de Uruburetama, Meruoca e Baturité, a última com 1.115m, no pico Alto, ponto culminante da região Nordeste. As chapadas são elevações tabulares de grande extensão, formadas por terrenos sedimentares dispostos em camadas horizontais ou ligeiramente inclinadas. Dominam aí formações areníticas muito porosas, nas quais a água da chuva se infiltra, dando origem a fontes naturais no sopé das chapadas. As mais importantes chapadas localizam-se nas divisas com estados vizinhos: a do Apodi, a nordeste; a do Araripe, ao sul; e a de Ibiapaba, a oeste.

    Os tabuleiros litorâneos são também formações areníticas do período terciário, pouco elevadas, e estendem-se por toda a extensão da costa cearense, dominando as praias. Finalmente, ao longo dos rios (Jaguaribe, Acaraú e outros), desenvolvem-se planícies aluviais (várzeas) sujeitas a inundações, que lhes renovam periodicamente os solos. Cerca de 92% da superfície do estado se encontra abaixo de 600m de altura, e 56% abaixo de 300.

    Os solos dos extensos plainos do sertão (pediplanos) são em geral rasos, mas apresentam boa composição química. As dificuldades que oferecem à utilização agrícola resultam apenas de sua deficiência em umidade. Por outro lado, o principal problema dos solos das serras é sua declividade, que favorece a erosão acelerada do terreno. Os solos das chapadas são em geral pobres.

    Salvo pequeno trecho da costa, nas vizinhanças de Fortaleza, que recebe de 1.000 a 1.500mm de chuvas anuais, prevalece na maior parte do território o clima semi-árido, do tipo Bsh de Köppen. A pluviosidade reduzida (menos de 1.000mm anuais e, em alguns locais, menos de 600mm) está sujeita a um regime irregular. Em determinados anos, a estação chuvosa não se produz, desencadeando o fenômeno da seca. Essas condições são ainda agravadas pelo forte calor, de que resulta um elevado índice de evaporação, que muito reduz a disponibilidade de água no solo. Só escapam a esse quadro serras e chapadas, pelas chuvas de relevo que determinam.

    O revestimento vegetal se caracteriza pela predominância das caatingas, que recobrem cerca de 91% da superfície estadual. Esse tipo de vegetação encontra-se bastante modificado pela ação do homem, que o substituiu por plantações de algodão ou o transformou em pastagem, eliminando o estrato arbóreo ou arbustivo. Ocorrem ainda no Ceará, ocupando pequenas áreas, mais três tipos de vegetação: cerrados no topo plano das chapadas; carnaubais nas várzeas dos rios, sobretudo na do Jaguaribe; e florestas nas encostas de serras e sopés de chapadas.

    O principal rio do Ceará é o Jaguaribe, cuja bacia drena todo o sul, o centro e o leste do estado. O norte é banhado por pequenos rios independentes, entre os quais o Coreaú, o Acaraú e o Aracatiaçu. Todos os rios do Ceará são temporários, pois "cortam" na estação das secas, isto é, secam. Dentre os açudes construídos no estado, os maiores são os de Orós, no Jaguaribe, e de Banabuiú, no rio do mesmo nome. A capacidade de armazenamento de água atinge 7,8 bilhões de metros cúbicos, mas a utilização dos açudes na irrigação ainda é reduzida.

    A distribuição da população é irregular, com forte contraste entre zonas de fraca e intensa concentração demográfica. A maior parte do território estadual - as grandes planuras do pediplano, marcadas por baixa pluviosidade - registra menos de vinte habitantes por quilômetro quadrado. Aí se incluem amplos espaços com menos de dez habitantes por quilômetro quadrado. Por outro lado, observam-se duas áreas em que as densidades demográficas nunca ficam abaixo de vinte habitantes por quilômetro quadrado, mantendo-se em geral acima de trinta. A primeira compreende todo o norte do estado e estende-se para o sul ao longo da divisa com o Piauí até Crateús. Além da proximidade do litoral, essa região compreende numerosas elevações, às quais se associa maior pluviosidade (chuvas de relevo), o que possibilita uma agricultura mais intensa; além da chapada de Ibiapaba, encontram-se aí as serras de Meruoca, Mucuripe, Uruburetama, Dança, Arará, Maranguape, Aratanha e Baturité. Fortaleza e Sobral são os principais centros urbanos.

    A segunda área de adensamento populacional, no sudeste do estado, compreende o sopé setentrional da chapada do Araripe, onde se desenvolve a importante região agrícola do Cariri, a zona serrana que antecede a chapada e um trecho da várzea do rio Jaguaribe. Os principais centros urbanos são Crato e Juazeiro do Norte.

    O território do Ceará encontra-se sob a influência de duas metrópoles regionais: Fortaleza e Recife. A primeira domina a maior parte do estado, cabendo à segunda apenas a extremidade meridional (Cariri e chapada do Araripe). Como porto, entroncamento viário, centro industrial, comercial e de serviços e centro cultural, a influência de Fortaleza se faz sentir também sobre o norte e o centro do Piauí e o leste do Maranhão. Na porção ocidental do Ceará, é por meio de Sobral que Fortaleza comanda a vida econômica; na parte centro-norte, é por meio de Iguatu.

    A segunda cidade do Ceará, Juazeiro do Norte, situa-se, entretanto, na zona de influência de Recife. Juntamente com a cidade do Crato, que fica apenas a 12km dela, serve ao extremo sul do estado e a alguns municípios do noroeste de Pernambuco e sudeste do Piauí.

    Aproximadamente 75% da população ativa ocupa-se do setor agropecuário. A agricultura constitui o setor de maior importância econômica, quer pelo valor da produção, quer pelo efetivo de mão-de-obra utilizado. Domina no estado a pequena lavoura comercial e de subsistência.

    A cultura do algodão arbóreo, importante produto do estado pela área ocupada e valor da produção, ocupa grande parte da área agrícola do pediplano, onde também se cultiva a mamona. Em meio a essas áreas, ocupando os leitos secos dos rios, surgem na estação seca as chamadas culturas de vazante, que provêem em parte a subsistência da população local.

    Outro tipo de agricultura aparece nas várzeas dos rios (terrenos aluviais), sobretudo nos vales do Jaguaribe, Banabuiú e Acaraú, com cultivos de cana, arroz, milho, feijão e algodão herbáceo. Em encostas de serras, chuvas de relevo permitem aproveitamento mais intenso do solo com cultura de cana, café, árvores frutíferas (sobretudo banana) e alguns produtos de subsistência (milho, feijão e mandioca). A agricultura que se desenvolve no sopé das chapadas também se prende à ocorrência de chuvas de relevo, mas aí se verifica ainda o aproveitamento da água de fontes naturais. Os principais cultivos são banana, cana-de-açúcar, feijão, arroz e milho.

    A mais importante das rodovias é a BR-116, que de Fortaleza se dirige para o Recôncavo baiano, passando pelo vale do Jaguaribe, onde toca as cidades de Ruças e Jaguaribe. Outra importante rodovia pavimentada é a BR-222, que de Fortaleza se lança em direção a Sobral, e daí prossegue até Piripiri, no Piauí.

    A rede ferroviária compreende duas linhas-tronco dispostas em sentido norte-sul. A primeira parte do porto de Camocim para o sul, passando por Sobral e Itu, e atinge Crateús. A segunda parte de Fortaleza se estende também para o sul, tocando Baturité, Quixadá, Quixeramobim, Senador Pompeu, Iguatu, Juazeiro do Norte e Crato. As duas linhas-tronco foram ligadas pela linha Fortaleza-Sobral em 1949.

    O estado possui três portos: Camocim, Mucuripe e Aracati. Mucuripe, em Fortaleza, é o único porto organizado do Ceará. O de Camocim situa-se na embocadura do rio Coreaú, a oeste, e o de Aracati no baixo Jaguaribe, a leste.

    Américo Vespúcio teria sido o primeiro europeu a passar ao longo da costa cearense, em meados de 1499, quando seu navio percorreu todo o litoral norte do Brasil a partir do cabo de Santo Agostinho, no Rio Grande do Norte. O mesmo percurso foi feito em princípios do ano seguinte por outra caravela espanhola, camandada por Vicente Yañez Pinzón. O Ceará, porém, só começou a ganhar vulto na história do Brasil quando da distribuição das capitanias hereditárias, cabendo a "Capitania do Siará" (1535) a Antônio Cardoso de Barros, fidalgo português que não se animou a tomar posse do feudo que lhe concedera el-rei D. João III. E mal lhe serviu a ingratidão, pois viajando de retorno ao reino, após desempenhar na Bahia o cargo de provedor-mor, embarcou no malfadado navio em que se fizera ao mar o bispo D. Pero Fernandes Sardinha. Naufragando o barco na altura de Alagoas, foram o bispo e o donatário devorados pelos índios caetés (1556). Por causa desse desastre, continuou o Ceará a pertencer a seus naturais - tupis de língua geral na beira-mar, tapuias de "língua travada" no interior - durante toda a segunda metade do século XVI.

    Já em pleno domínio espanhol, no reinado de Filipe III, o açoriano Pero Coelho de Sousa obteve do governador-geral Diogo Botelho permissão para colonizar o "Siará Grande", onde chegou em 1603, partindo do "Siará-Mirim", no Rio Grande do Norte. À futura colônia chamou Nova Lusitânia e ao arraial projetado, Nova Lisboa. Entrando em lutas com os franceses de Adolphe Membille, que fixados no Maranhão se espalharam rumo ao sul, Pero Coelho de Sousa os deteve às margens do Punaré (Parnaíba), até onde chegara sua expedição. Não conseguindo dominar a terra, Pero Coelho retirou-se em 1607 para a Paraíba.

    Outra tentativa de penetração no Ceará foi confiada aos jesuítas Francisco Pinto e Luís Figueira em 1607. Os padres, visando à catequese dos índios, destinavam-se - como Pero Coelho - a Ibiapaba e ao Maranhão, mas lá também não puderam chegar. O padre Francisco Pinto foi morto a tacape pelos índios. O padre Figueira, depois de muitos sofrimentos, conseguiu regressar a Pernambuco, para mais tarde ter sorte ainda mais negra: devoraram-no os bugres depois de um naufrágio na ilha de Marajó. Na sua passagem pelo Ceará os padres conseguiram, porém, catequizar várias aldeias e ganharam a amizade de chefes índios.

    Na expedição de Pero Coelho, destacou-se por seu relacionamento amistoso com os gentios um jovem soldado, Martim Soares Moreno. Ele próprio narrou em sua Relação do Siará que se dava tão bem com os índios que por gosto se despia, se pintava de jenipapo, raspava o rosto e fazia uso do arco e da flecha. Soares Moreno voltou ao Ceará, em 1611, em companhia do padre Baltasar João Correia e mais seis soldados. Construíram um pequeno forte na foz do rio Ceará, onde resistiram a várias tentativas de invasões de franceses e holandeses. Os amores de Soares Moreno, o verdadeiro fundador do Ceará, com a índia Iracema serviram de tema para o romance de José de Alencar. Após muitos combates, naufrágios e prisões, Soares Moreno foi à Europa e obteve uma carta régia em 1619 que lhe deu o título de "senhor da capitania do Ceará", onde nessa qualidade aportou em 1621, para se fixar por muitos anos. Somente meio século depois voltou a Portugal, deixando porém consolidada e florescente sua capitania.

    Os holandeses de Pernambuco tentaram estender seus domínios ao Ceará. Duas vezes o invadiram, a primeira, desembarcando no Mucuripe em 1637, sem êxito. Retornaram em 1649 e erigiram na embocadura do rio Pajeú (enseada do Mucuripe) uma fortificação a que deram o nome de Schoonenborch. A expedição, saída de Recife em 30 de março, tendo à frente o capitão Matias Beck, chegou ao Mucuripe em 6 de abril. O forte tornar-se-ia centro das atividades militares e dos trabalhos de exploração de minas de prata, na serra de Maranguape.

    Em 1654, porém, os holandeses viram-se obrigados a entregá-lo aos portugueses, que o reformaram e dele fizeram quartel e sede do governo da capitania. De reforma em reforma, pois era construído de madeira, o forte resistiu até 1812, quando outro, de alvenaria, o substituiu. O mesmo local da fortificação holandesa serviu de base à fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, em torno da qual se vinha aglutinando um grupo populacional. Dela vem o nome da capital.

    A irradiação para o interior, todavia, foi mínima. Sem o estímulo da metrópole, o povoamento teria de processar-se aventurosamente. Homens de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Bahia, informados das excelentes pastagens e do bom clima dos sertões do Ceará, começaram a ocupação, expulsando os índios, ou, quando possível, domesticando-os e aproveitando-os no trabalho. À proporção que conquistavam terreno, instalavam currais para recolher os rebanhos que conduziam e, sem demora, oficializavam suas conquistas, com a obtenção de sesmarias.

    A interiorização acelerou-se rios acima, de modo que, da última década do século XVII até a terceira do século seguinte, multiplicaram-se os currais, já transformados em fazendas, implantando-se, com isso, uma economia essencialmente pecuarista. Objeto de intensa comercialização, vivo ou abatido para o consumo, o boi era a grande moeda. Valia ainda como animal de tiro e, sobretudo, pelo couro, matéria-prima destinada a inúmeras aplicações, notadamente na confecção de selas e arreios e da roupa-de-couro - chapéu, gibão, perneiras e sapatos - com que os vaqueiros se vestiam nas arrancadas mato adentro, em perseguição a reses bravias criadas no mato, denominadas barbatões.

    Esse estilo de vida implantado nos sertões foi definido como a "civilização do couro". Mercadoria que se transportava por si e de fácil colocação, as boiadas eram objeto de largo comércio com as praças de Pernambuco, de onde, em troca, vinham tecidos, louças, ferramentas e outras utilidades indispensáveis à vida das fazendas. Mais tarde, a experiência realçaria a vantagem de abater-se o boi em seu lugar de origem, salgar-lhe a carne e transportá-la para os centros de consumo a que se destinava, originando-se, com isso, ativo comércio. Conduzidas as boiadas aos portos de Aracati e Acaraú, ali eram abatidas, com a carne submetida ao processo da salga e da secagem, num arremedo de indústria que enriqueceria as zonas pastoris. O processo utilizado nas charqueadas cearenses, que se tornaram famosas, iria ser depois imitado no Rio Grande do Sul, onde se estabeleceria o aracatiense José Pinto Martins, às margens do arroio Pelotas.

    A indústria saladeiril desenvolvera-se de tal forma que, dos portos cearenses de Aracati, Acaraú e Camocim, passou ao de Parnaíba, no Piauí, e aos de Açu e Moçoró, no Rio Grande do Norte. A carne charqueada, de mais fácil transporte e comercialização, reduzia gradativamente a remessa das boiadas para a zona açucareira de Pernambuco, o que motivou ser proibida sua exportação pelos portos norte-rio-grandenses. Como a medida proibitiva não atingisse o Ceará, sua indústria se manteve florescente, pelo menos até a grande seca de fins do século XVIII. Durante três anos não choveu e os rebanhos se aniquilaram.

    O fenômeno das longas estiagens tem dado motivo a certos equívocos, levando à suposição de ser a terra árida de escassa produtividade, e a vida do homem nela radicado um constante sacrifício. As estiagens são na verdade crises periódicas, com espaçamento às vezes de trinta anos. Caracteriza-as ora a falta completa de chuvas por um ano, dois ou três (secas totais), ora a má distribuição das quedas pluviais no tempo ou no espaço. Chove bastante, mas de modo irregular, dando margem a que, com a demora, o solo se resseque e as plantações morram. Quando volta a chover, já o prejuízo se concretizou. De outras vezes, chove suficientemente em determinadas áreas e em outras não (secas parciais). Fora disso, em geral o Nordeste é verde e produtivo.

    Voltado sobretudo para a pecuária, com uma agricultura apenas de manutenção, sem açúcar, sem ouro, sem nenhuma das riquezas do tempo, o Ceará atravessou obscuramente a fase colonial. Dependendo sucessivamente do Maranhão, do Pará e de Pernambuco, só logrou a autonomia em 1799, passando Fortaleza a ser sede do governo depois de 1810. As vilas, porém, iam-se formando junto às grandes fazendas ou nos pontos de repouso das tropas vindas do sul. Um dos mais prósperos núcleos de povoação se constituíra no Cariri, tendo como centro a vila do Crato, fundada por uma missão franciscana. Icó, entreposto comercial, era o elo de ligação entre o Cariri e o litoral. Aracati era porto de mar, por onde se exportavam couros e o charque, o qual, por causa disso, ainda é hoje chamado em todo o Nordeste de "carne do Ceará".

    O comércio direto com a Europa, e não apenas por intermédio do Recife, intensificou as exportações dos produtos locais. O algodão passou a integrar a riqueza geral. De ótima qualidade, disputavam-no os mercadores europeus, constituindo, ainda hoje, um dos principais produtos de exportação do Ceará, sobretudo para os países da Europa.

    Franqueados os portos brasileiros às nações amigas pela carta régia de 1808, reforçaram-se as trocas com o Reino Unido, inaugurado esse comércio pela galera Dois Amigos, logo seguida por outras embarcações, americanas e portuguesas.

    A inconfidência dera a impressão de se restringir a Minas, mas o fato é que o nativismo medrara pelo Nordeste, adormecendo embora, como em todo o Brasil, durante a presença da família real no Rio de Janeiro. Em 1817, porém, rebentou no Recife um movimento liberal, provocando repressão e mortes. Essa revolta se espalhou pelas províncias vizinhas.

    Proclamou-se assim no Crato o governo republicano, derrubou-se o pelourinho, hasteou-se o pendão novo. Sucedeu contudo que o capitão-mor não deu ao movimento a prometida adesão. Ao contrário, tomou das armas, esmagando a nascente ramificação da república de Pernambuco com apenas oito dias de vida. O então governador tratou de dar punição exemplar aos que se rebelaram contra a coroa. Mandou trazer algemados e acorrentados, por meio das cem léguas que vão de Fortaleza ao Crato, os presos republicanos. Um longo processo se arrastou contra eles na relação da Bahia, para onde foram mandados, processo que só depois da vitória dos constitucionais em Portugal foi declarado nulo.

    Sobrevindo a independência nacional, com a reação da Bahia, Piauí e Maranhão, teve o Ceará decisiva participação na campanha contra o comandante português. Um exército improvisado, de mais de seis mil homens, enfrentou o inimigo em Caxias e fê-lo capitular, a 1º de agosto de 1823.

    O movimento de 1817, embora abortado, foi a semente de outro de maior extensão, que também floresceu em Pernambuco: a Confederação do Equador, que eclodiu em julho em Recife e no qual o Ceará esteve diretamente envolvido.

    O povo abateu a machado a forca na qual haviam perecido os mártires de 1817 e 1824. Entrou-se na regência, que no Ceará não se fez notada por importantes agitações, como em outras províncias. No poder, iam-se alternando os presidentes, de acordo com os ventos que soprassem da corte. A partir de meados do século, Fortaleza passaria a receber a influência de ingleses e franceses, no comércio e nos hábitos mais refinados, servida com eficiência por linhas internacionais de navegação. Uma série de melhoramentos urbanos datam da mesma época: ruas calçadas e iluminadas a gás, rede ferroviária, telefones, lojas bem montadas e bons educandários. Depois da grave seca que assolou o estado em 1877, iniciou-se a construção do grande açude do Quixadá. Fortaleza era um centro de grande fermentação intelectual, onde vários jornais pregavam as chamadas "idéias novas" e se caracterizavam pelo espírito polêmico.

    Dois temas apaixonavam a opinião pública cearense nas três últimas décadas do século XIX: a pregação republicana e sobretudo a abolição da escravatura. A lentidão do movimento que se processava no Parlamento imperial, visando a dar paulatinamente liberdade aos escravos, desesperava os abolicionistas do Ceará. Grupos ativistas começaram a agir, libertando negros em grande escala. Fundaram-se associações libertadoras: uma moderada, o Centro Abolicionista, a outra romanticamente jacobina, a Sociedade Cearense Libertadora. Os sócios desta, na maioria republicanos e maçons, agitaram o ambiente provinciano com uma dramática reunião na "sala do aço", quando o presidente, à luz das velas, cravou um punhal na mesa forrada de pano negro e exigiu dos presentes, a 30 de janeiro de 1881, o juramento de "matar ou morrer pela Abolição".

    Os estatutos da Libertadora pareciam tirados a uma peça do repertório romântico: "Artigo 1º: Um por todos, todos por um. Parágrafo único: A sociedade libertará escravos por todos os meios ao seu alcance". E a sociedade realmente libertava escravos de todas as maneiras. Raptavam-se cativos, escondiam-se negros fugidos, disfarçavam-nos sob roupas de senhores, contrabandeavam-nos para longe, munidos de falsas cartas de alforria.

    Para resgatar escravos à venda, os libertadores davam seus relógios e correntões, as damas libertadoras seus brincos e anéis. Os jangadeiros, que faziam o transporte de passageiros e carga para os navios ancorados ao largo, no mar agitado de Fortaleza, aliaram-se à Libertadora, chefiados pelo famoso Francisco José do Nascimento, o "Dragão do Mar". Fechou-se o porto ao tráfico dos escravos que seus senhores, fugindo à ação dos abolicionistas, vendiam para outras províncias.

    Nos municípios onde se libertava o derradeiro cativo, celebravam-se festas cívicas de repercussão nacional. Acarape, que foi o primeiro, teve o seu nome mudado para Redenção. Seguiram-se Paracatuba, São Francisco, Baturité, Icó e todos os demais municípios. A 8 de maio de 1883 declarou-se liberta Fortaleza e, enfim, a 25 de março de 1884, quatro anos antes da Lei Áurea, abolia-se a escravidão em toda a província do Ceará.

    A última década do séc. XIX caracterizar-se-ia particularmente por intensa agitação, com o advento e a implantação do regime republicano, a que o Ceará aderira no dia imediato ao da proclamação. Deposto o presidente da província, foi aclamado governador provisório o comandante do 11º batalhão de infantaria, em Fortaleza, não sem os protestos de alguns republicanos mais ardorosos ante a escolha, considerada pouco feliz, de um antigo e leal servidor do império, e mais, ante a circunstância de estar participando do movimento, como porta-bandeira, um estrangeiro tido como homem de aventuras duvidosas.

    Adoeceu pouco depois, sendo substituído pelo vice-governador, que transmitiu o cargo, a 22 de janeiro de 1890, ao vice-presidente. A posse do presidente do estado nomeado, deu-se a 28 de abril. Eleito governador constitucional pelo voto do Congresso cearense, inicia sua gestão em 7 de maio. Sobrevindo, no entanto, o golpe de estado, e com ele não concordando, teve de suportar violento ataque da força federal e dos alunos da escola militar, que bombardearam o palácio, levando-o a renunciar, na manhã de 2 de fevereiro de 1892.

    Assume de novo o posto o vice-governador, que decreta a extinção do congresso e convoca outro para o mês de maio.

    Desde o último terço do século XIX crescia no Cariri a comunidade de Juazeiro, à sombra do padre Cícero Romão Batista, que encheu o Nordeste com sua presença durante cerca de cinqüenta anos. Seu imenso prestígio popular acabou fazendo com que caísse em suas mãos o poder político de toda a região, chefia que o padre transferia para seu lugar-tenente, singular figura de caudilho e aventureiro, o médico baiano Floro Bartolomeu. Embora jamais saísse do Juazeiro, senão para duas viagens disciplinares a Roma, o padre Cícero elegera-se deputado federal e vice-presidente do estado, ou fazia eleger-se o doutor Floro. O padre dava seu apoio ao partido "marreta" (aciolista) e assim, a insurreição rabelista o visava especialmente.

    Levantou-se pois no Cariri, o brado da guerra santa. Do Nordeste inteiro acudiam jagunços (ainda estava viva, na lembrança do sertão, a luta de Canudos), coronéis, chefes políticos com seus cabras armados, cangaceiros, beatos - "romeiros" se chamavam todos, correndo em socorro do "padrinho". A "cidade santa" do Juazeiro era a "Nova Jerusalém" que os "hereges rabelistas" mandavam cercar por tropa da polícia. Mas o fanatismo dos defensores vencia a superioridade da tropa regular e, em combates diários, os legalistas eram rechaçados. Por fim, as hostes de romeiros levaram de roldão qualquer resistência. O governo da União decretou intervenção federal em 14 de março de 1914. O padre Cícero mandou recolher as "colunas libertadoras" e assim acabou a guerra santa.

    No fim do século XIX, o chamado ciclo da borracha importou em inúmeros benefícios para o Ceará, cujas exportações de borracha de maniçoba, juntamente com o largo comércio com a Amazônia, carrearam apreciável riqueza para o estado. O êxodo de cearenses e de outros nordestinos para a Amazônia encerrava certamente o mesmo sentido épico das antigas bandeiras do centro-sul. A vasta e até então inexplorada região do grande rio, sobretudo a acriana, seria desbravada e parcialmente povoada por esses retirantes, que, embora desprotegidos, se entregaram esperançosos à conquista da terra hostil, mas promissora.

    No início do século, apesar dos efeitos da seca devastadora de 1900, o Ceará progredia, material e culturalmente. Em 1907 seria fundada sua primeira escola superior, a Faculdade de Direito. Após 1922, restaurada a ordem no país, as atenções da administração nacional, dirigida pelo paraibano Epitácio Pessoa, voltaram-se para a região esquecida do Nordeste. Estradas de rodagem e grandes açudes abriram ao homem do sertão perspectivas de progresso e novos hábitos se estratificaram. As obras contra as secas, com todos os seus erros, prestaram valiosa contribuição. O Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, órgão federal, bem orientado e dispondo de recursos financeiros, empenhou-se em contribuir para o fim do subdesenvolvimento na região nordestina.

    Revolução de 1930 - Como suas precursoras de 1922 e 1924, a revolução de 1930 não chegou a levar a luta armada ao Ceará, embora um dos capitães da "coluna Prestes", e mais tarde chefe do movimento de 1930, fosse cearense. O getulismo, que se assentara no estado por ocasião da vitória da Aliança Liberal, demorou-se no poder até a deposição de Vargas, em 1945. No entanto, as administrações governamentais do Ceará, a partir da revolução de 1930, beneficiariam o estado com obras fundamentais, no que respeita às rodovias, telecomunicações e eletrificação, mediante o aproveitamento da energia do São Francisco. A educação desenvolveu-se com a criação de universidades e de modernas casas de ensino.

    Durante todo o século, contudo, os cearenses continuaram a buscar melhores condições de vida em outras partes do país. Cearenses formavam a maioria dos envolvidos na revolta que resultou na anexação do Acre, e a maioria dos candangos que construíram Brasília. Com a construção de açudes de grande porte, como o de Orós, na década de 1950. O estado começou a superar a fase em que dependia quase apenas de uma pecuária sem grande peso econômico e de algumas culturas. A criação do Distrito Industrial de Fortaleza, em 1971, deu condições para o estado se tornar o maior parque de confecções do Nordeste, enquanto que na década de 1990 o estado atraía várias indústrias, sobretudo do setor calçadista.

    A Academia Cearense de Letras, a mais antiga do Brasil, foi fundada em 1894. Outras entidades importantes, todas em Fortaleza, são a Casa Juvenal Galeno, dedicada à literatura; a Biblioteca Pública do Estado; o Museu da Escola Normal; a Sociedade Musical Henrique Jorge; a Comédia Cearense e o Clube de Cinema de Fortaleza.

    Dentre os museus destacam-se o Museu de Arte Moderna da Universidade Federal do Ceará, o Museu Histórico Gustavo Barroso e o Museu da Escola Normal, cuja coleção arqueológica foi tombada pelo Patrimônio Histórico. Fortaleza possui ainda o Museu Histórico do Ceará e o Museu de Arte da Universidade do Ceará. Em Juazeiro do Norte funciona o Museu do Padre Cícero e em Aquiraz o Museu de Arte Sacra São José do Ribamar.

    Na capital, o teatro José de Alencar, com 706 lugares, foi tombado pelo Patrimônio Histórico. Destacam-se ainda a casa em que nasceu o compositor Alberto Nepomuceno, a Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, o chafariz Tomás Pompeu, o monumento ao Cristo Redentor, todos em Fortaleza. Outro monumento tombado é a casa onde nasceu o romancista José de Alencar, em Mecejana; e em Juazeiro do Norte, o túmulo do padre Cícero, local de romaria para toda a população do Nordeste.

    O principal centro de atração turística do estado é a própria capital, que possui praias famosas como as de Iracema, do Futuro, Barra do Ceará, Volta da Jurema e Mucuripe (as duas últimas, pontos de recolhimento de jangadas). Mas há outras cidades cearenses como Aracati, Cascavel, Camocim e Beberibe que se destacam pela beleza de suas praias. Entre as igrejas, destacam-se a Catedral Metropolitana, igrejas de Nossa Senhora do Carmo, do Cristo-Rei, do Pequeno Grande (Fortaleza); basílica de São Francisco das Chagas (Canindé); matriz de Nossa Senhora de Assunção (Viçosa do Ceará); basílica dos Capuchinhos, capela do Horto e igreja de Nossa Senhora das Dores (Juazeiro do Norte).

    Outros pontos turísticos da capital são a sede do Instituto do Ceará; Cidade da Criança, antigo parque da Liberdade; o Passeio Público, antiga praça dos Mártires, onde se encontra a cela em que esteve presa Bárbara de Alencar; o farol do Mucuripe; o estádio Presidente Vargas; a lagoa de Mecejana; a sede do Náutico Atlético Cearense; e a praça do Ferreira.

    A 28km de Fortaleza encontra-se a antiga cidade de Aquirás, com o Museu Sacro de São José de Ribamar e a matriz de São José de Ribamar. Nas proximidades da divisa com o Piauí situa-se o Parque Nacional de Ubajara, com uma gruta calcária de cerca de meio quilômetro de extensão. A cidade de Juazeiro do Norte, no sul do estado, constitui também importante centro de artesanato. Representam ainda atrações turísticas importantes no estado a lagoa do Iguatu e o sítio Gameleira, em Iguatu; o açude do Cedro, em Quixadá; o açude Orós, em Orós; e a Casa dos Milagres, em Canindé.

     

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