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    A Antiga Região da Mesopotâmia

    altBerço de algumas das mais ricas civilizações humanas, a Mesopotâmia viu surgir os primeiros impérios, as primeiras cidades da antiguidade e algumas importantes invenções do homem, como a escrita e a legislação.

    A Mesopotâmia (em grego, região entre rios) está situada na região delimitada pelos rios Tigre e Eufrates, no sudoeste da Ásia. Embora seus limites variassem em diferentes períodos de sua história, de modo geral a Mesopotâmia abrangia, na antiguidade, o território do atual Iraque, ficando ao norte a cordilheira dos Taurus, que a separa da Armênia, ao sul o golfo Pérsico, a oeste a Assíria e a leste a Síria. O limite entre as regiões norte, montanhosa, e a sul, plana, era a zona de Bagdá, onde mais se aproximam os rios Tigre e Eufrates. Os romanos as denominaram, respectivamente, Mesopotâmia e Babilônia.

    Muitos grupos étnicos tentaram fixar-se na região, e esses movimentos migratórios acabaram por fazer surgir importantes civilizações, como a dos assírios, que ocuparam a área montanhosa, e a dos sumérios e babilônios, instalados nas planícies do sul. A essência da cultura suméria se manteve mesmo após a desintegração do estado sumério e por isso pode-se, apesar da grande diversidade dos grupos étnicos, falar de uma civilização mesopotâmica.

    A Bíblia, o relato de Heródoto e os textos do sacerdote babilônio Berossos, estes datados de aproximadamente 300 a.C. eram, até o fim do século XIX, as únicas fontes de informação sobre a história da Mesopotâmia. As escavações iniciadas em meados do mesmo século, no território do Iraque, e a decifração dos caracteres cuneiformes permitiram avaliar o papel desempenhado pela Mesopotâmia na criação de sociedades urbanas mais evoluídas.

    A escrita cuneiforme foi empregada na Babilônia até o século I a.C. e o idioma, como língua erudita, até o primeiro século da era cristã. Com a decifração dessa escrita, foi possível descobrir a literatura da região, cujos épicos tiveram como um dos principais temas a sensação de instabilidade provocada pelo difícil controle dos rios Tigre e Eufrates. A escrita cuneiforme sobreviveu também ao domínio helenístico. A influência do grego era significativa, mas tudo indica que o aramaico se tornou a língua popular, em especial nos centros urbanos da época.

    Os primeiros imigrantes chegaram à Mesopotâmia e fixaram-se no sul e ali criaram o que teria sido, segundo a tradição suméria, seu primeiro núcleo urbano, Eridu. O povoamento tornou-se mais intenso no milênio seguinte, com um novo movimento migratório, procedente do leste. Ao mesmo tempo, no norte, grupos de origem semítica formavam uma nova cultura, que assumiria gradativamente papel preponderante na região. As escavações comprovaram não haver nesse período uma separação estrita entre as duas regiões, na medida em que nomes semitas são encontrados entre os sumérios. A Mesopotâmia era, de todo modo, povoada por dois povos de origens distintas, o que explica as denominações de terra de Sumer (sul) e Acad (norte).

    As primeiras tentativas de organização de aldeias agrícolas na área de Acad foram registradas em sítios arqueológicos como Hassuna, Jarmo e Samarra. Do ponto de vista cultural, os grupos que habitavam a área no chamado período Obeid I eram atrasados em relação aos povos do sul, mas alguns centros, como Nínive, já se assemelhavam mais a cidades do que a aldeias.

    Os habitantes do norte expandiram-se para o sul, no século XXIV a.C., e fundaram um reino unificado sob o governo de Sargão, criador de uma dinastia semítica, cuja capital era a cidade de Acad. Os invasores não possuíam cultura própria, motivo pelo qual absorveram a cultura e as técnicas de guerra do sul. Assim, a transferência do centro do poder político, de início instalado na cidade de Acad, para Nínive ou Babilônia, não teve influência na evolução cultural da região.

    Com a terceira dinastia de Ur, cujos domínios incluíam a Assíria, praticamente completou-se a unificação da Mesopotâmia. O norte preservava apenas seu idioma semita, escrito, porém, em caracteres cuneiformes sumérios. Por volta de 2000 a.C., invasores elamitas e amorritas derrubaram essa terceira dinastia de Ur. Após um período de destruições, o sul voltou a prosperar, enquanto, no norte, Assur tornou-se independente e na Babilônia surgiu uma dinastia local, amorrita, apoiada pelos semitas acadianos.

    O mais poderoso soberano da Babilônia foi Hamurabi, responsável por uma nova unificação da Mesopotâmia. Seu império se estendeu do golfo Pérsico até o norte de Nínive, e das montanhas elamitas até a Síria. A região logo voltaria a ser dividida, entretanto, entre o sul e o norte, depois que os reis cassitas derrubaram a dinastia de Hamurabi. Os cassitas mantiveram a cultura e as tradições babilônicas, mas transformaram o reino com uma ampla reestruturação administrativa e a adoção do sistema feudal. A dinastia cassita governou até cerca de 1430 a.C., e seu domínio foi marcado por uma significativa produção literária. Algumas das obras do período configuraram um padrão para épocas posteriores, até mesmo para a redação da epopéia de Gilgamesh.

    Após o período da dinastia cassita, a Babilônia perdeu sua influência política, ao mesmo tempo em que o poderio dos assírios cresceu consideravelmente. Nesse período, invasores indo-europeus criaram diversos estados na região, entre os quais o reino de Mitani. No século XII a.C., o poderio assírio chegou ao apogeu sob o reinado de Tukulti-Ninurta I. A Assíria dominava então toda a região localizada a leste do Eufrates. Os sucessores do soberano não conseguiram manter o território, cuja desintegração política foi motivada também pela chegada à região de diversas tribos de arameus, que aí fundaram vários reinos independentes.

    Nos séculos seguintes, os reinos arameus começaram a ser incorporados ao império da Assíria, a que a Mesopotâmia voltou a ficar subordinada. Nesse período, a ascensão de uma das tribos dos arameus, os caldeus, contribuiu de maneira significativa para a queda do poderio da Assíria e para o estabelecimento, no sul da região, do reino neobabilônico de Nabopolassar. Esse soberano firmou com Ciaxares, da Média, uma aliança que dividiu a Mesopotâmia entre medos e babilônicos, situação que se manteve até 539 a.C., quando a região foi transformada numa satrapia do império persa durante o reinado de Ciro. No período, registrou-se um florescimento cultural, em que a literatura, a religião e as tradições sumérias e babilônicas eram preservadas nas escolas dos templos.

    Em 331 a.C., a vitória de Alexandre o Grande sobre Dario III marcou o início da colonização macedônica. A Babilônia tornou-se então importante centro cultural, verdadeiro ponto de encontro entre as culturas grega e oriental. Com a morte de Alexandre, instalou-se uma dinastia selêucida que governou por pouco mais de um século. Por volta de 140 a.C., a Mesopotâmia foi incorporada ao império parta.

    No ano 115 da era cristã, o imperador romano Trajano submeteu a região até Singara. Sob o domínio de Roma, foi gradativa a difusão do cristianismo, por intermédio dos cristãos da Síria, que fundaram o bispado de Edessa. Esse bispado converteu-se depois à heresia nestorianista, cujos integrantes se congregaram em Nísibis, em meio a uma complicada situação religiosa, na qual as decisões do Concílio de Calcedônia contra o monofisismo acabaram por provocar a divisão dos cristãos em três grupos: nestorianos, jacobitas e melquitas.

    A partir do século III, a luta de Roma dirigiu-se contra as pretensões sassânidas na Mesopotâmia. Em meio à desordem política generalizada, a Mesopotâmia converteu-se, por dez anos, em porção do reino de Palmira, até a expedição do imperador Aureliano. A luta contra os persas, porém, prosseguiu até o ano 298, quando Diocleciano submeteu a Mesopotâmia, até o Tigre, ao poder de Roma. Todavia, a luta continuou e, em 363, os romanos conseguiram uma trégua, mas tiveram que ceder Singara e Nísibis.

    Depois de recuperar suas antigas fronteiras, perdidas durante o avanço de Khosro I, por volta de 530, a Mesopotâmia bizantina foi obrigada a enfrentar o agravamento do conflito com os persas, com a perda de diversas cidades e o exílio de grande número de cristãos.

    Sob o governo de Heráclio, por volta de 640, Roma já perdera todas as cidades do norte para os muçulmanos. Nos séculos VII e VIII, a história da Mesopotâmia se caracterizou por uma série de transformações culturais e sociais, pela fundação de grandes cidades, mas também por intrigas, violências e desordens.

    Durante o predomínio muçulmano, teve início um período de tolerância religiosa e o idioma árabe passou a predominar sobre o siríaco. Disputas entre as facções muçulmanas dos abássidas e dos omíadas voltaram, porém, a ameaçar a estabilidade da região. Os omíadas abandonaram Damasco e instalaram-se em Harran, enquanto os abássidas se fixaram no Iraque e passaram a governar o Islã. Com a derrota de Hussein em Kerbela, no Iraque, no ano 680, o sul permaneceu xiita e o norte se tornou sunita, numa divisão do islamismo que se consolidaria ao longo do tempo. Centro vital do Islã, a região passou a beneficiar-se de um significativo afluxo de bens e manteve sua estrutura socioeconômica, com base na agricultura, que foi pouco afetada pelos conflitos.

    A história da Mesopotâmia é marcada, nessa fase, por grandes transformações. Surgem importantes cidades e a fundação de um califado com a capital em Bagdá marcou o início de um período de grande progresso. O poder político passou a partir de então a ser exercido por dinastias locais, embora em nome do califa.

    A região entrou em declínio na segunda metade do século IX, quando os escravos africanos deram início à guerra de Zanj, que durou de 869 a 883. Contribuíram para o enfraquecimento do poder político a organização dos imigrantes turcos - que haviam sido trazidos como escravos e posteriormente empregados como soldados mercenários -, as pretensões do Egito quanto à soberania da região de Jazirah e uma restauração da influência bizantina na dinastia macedônica. Ao agravamento da crise, em conseqüência das incursões dos turcos e dos cruzados, seguiu-se a vitória de Saladino sobre os cristãos, com o estabelecimento da supremacia egípcia no norte da Mesopotâmia.

    A prosperidade do sul da Mesopotâmia se manteve até o reinado do califa Nisir, que governou entre 1180 e 1242. Com grandes ambições políticas, o soberano contratou mercenários mongóis, mas a decisão se mostraria fatal para a sua dinastia: em 1258, as hordas mongóis de Hulagu assassinaram o último califa, saquearam Bagdá e destruíram todo o Iraque, inclusive o extraordinário sistema de irrigação da baixa Mesopotâmia. No ano seguinte, o norte também foi atacado e a Mesopotâmia teve assim arrasada toda a sua estrutura econômica e social. A região foi dessa forma reduzida a uma das mais pobres províncias do império de Hulagu, abalado por conflitos internos e pela inépcia dos governantes enviados pelos mongóis, incapazes de reconstruir suas cidades e de manter o controle sobre a região.

    A Mesopotâmia foi dominada por dinastias de origem turca, entre 1410 e 1508, e depois caiu em poder do imperador persa Ismail, fundador da nova dinastia dos safávidas, que tomou Bagdá naquele último ano e, depois, Mossul. O domínio de 1Ismail não durou mais do que 26 anos: sob a liderança do sultão Suleiman I, os otomanos acabaram por dominar Bagdá, em 1534. O sultão soube conquistar a lealdade das populações fronteiriças e não encontrou resistência em seu ataque decisivo à capital.

    As hostilidades entre turcos e persas prosseguiram até o século XIX. Na época, os conflitos entre as diversas tribos árabes nômades da região constituíram outro obstáculo a uma eventual unificação política. No início do século XX, com a política adotada por Midhat Paxá, esses problemas começaram a ser solucionados. Entre outras medidas, Paxá promoveu uma reestruturação administrativa e estimulou a sedentarização das tribos nômades, com a venda de terras aos xeques, o que reduziu a influência dos grupos que continuaram errantes.

    É crescente a partir desse período a influência na região da política colonialista do Reino Unido, que desde 1807 instalara seus cônsules com amplos poderes em Bagdá. Teve início então um significativo processo de modernização com o desenvolvimento das comunicações, após a implantação da navegação a vapor e do telégrafo e da construção de linhas ferroviárias. A reconstrução dos canais de irrigação foi outro importante fator de progresso na área. A hostilidade aos turcos continuou a dar margem à expansão do nacionalismo árabe, contida em parte pelos conflitos entre facções e pela situação socioeconômica do país.

     

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