
O I Ching ou Livro das Mutações, é um texto clássico chinês composto de várias camadas sobrepostas ao longo do tempo. É um dos mais antigos e um dos únicos textos da antiguidade chinesa que chegaram até nossos dias.
O livro que hoje chamamos I Ching, antigamente era apenas I: ideograma traduzido de muitas maneiras, que no século XX ficou conhecido no ocidente como "mudança" ou "mutação". Ching trás o significado de clássico, nome dado por Confúcio aos antigos livros que compunham sua base de ensinamentos.
O I Ching pode ser compreendido como um livro de sabedoria, que moldou o pensamento chinês, seja confucionista ou taoísta, e posteriormente atravessou os mares, se estendendo a todo o mundo.
A origem do I Ching é muito antiga e se remete ao tempo em que um pequeno símbolo dizia mais do que muitas palavras. Assim, surgiu sua base: uma linha inteira com significado yang, positivo, masculino, estável, horário; e uma linha segmentada (dividida ao meio) com significado yin, negativo, feminino, móvel, anti-horário. Entretanto, estas linhas, antes usadas isoladas, passaram a ser combinadas, juntando-se uma terceira. Desta forma nasceu os trigramas com suas oito possibilidades.
Cada um dos oito trigramas que compõem o Ba Guá (ou Pa Kua), tem um nome, um atributo, uma imagem e uma função familiar, são eles: Chi'ien, o Criativo; K'un, o Receptivo; Che-n, o Incitar; K'an, o Abismal; Kên, a Quietude; Sun, a Suavidade; Li, o Aderir; Tui, a Alegria.
Para mais possibilidades, dois trigramas foram combinados, formando figuras com seis linhas, inteiras ou divididas, originando os 64 hexagramas que compõem o atual I Ching. Esta composição é atribuída a Fu Hsi, cuja antiguidade antecede a memória histórica.
O tempo obscureceu sua compreensão, e no começo da dinastia Chou (1150 - 249 a.C.) surgiram dois anexos: o Julgamento, atribuído ao rei Wên, e as Linhas, atribuídas a seu filho, o duque de Chou, ambos fundadores desta dinastia.
Mais tarde, o significado destes textos começou a ficar novamente obscuro, e no século VI a.C. foram acrescentadas as Dez Asas, que a tradição atribui a Confúcio.
O I Ching escapou da grande queima de livros feita pelo tirano Ch'in Shih Huang Ti, no tempo em que era considerado um livro de adivinhação, o que levou a algumas escolas das dinastias Ch'in e Han a interpretá-lo segundo outras visões, sobrepondo a doutrina do yin-yang ao texto. O sábio Wang Pi veio resgatá-lo como livro de sabedoria e foi a versão editada por Confúcio que chegou a nosso tempo.
Houveram várias traduções do I Ching para línguas ocidentais, algumas claramente desrespeitosas, tratando a cultura chinesa como primitiva, e outras que visavam apenas seu uso como oráculo, esquecendo-se de sua verdade.
Richard Wilhelm traduziu o I Ching para o alemão ao longo dos anos em que viveu na China, inclusive durante a invasão japonesa, quando a cidade em que estava foi cercada. Teve o apoio do sábio Lao Nai Suan, que morreu logo que a tradução foi concluída. A edição alemã é do ano de 1923 e é considerada uma das melhores, sendo traduzida para vários idiomas, inclusive o português.
A mutação é um conceito profundo dentro do I Ching, entendida como um movimento cíclico, como as estações que ano a ano se apresentam como primavera, verão, outono e inverno. Cada ciclo trás suas semelhanças, mas também suas peculiaridades, novas flores, outra idade e período de evolução. Através do transitório porém, há a lei imutável e eterna que em tudo atua, o Tao, o princípio uno.
Sua manifestação é o T'ai Chi, traduzido por "viga mestra", simbolizado pelo yin-yang, um círculo dividido em luz e escuridão. Este símbolo sofreu deturpações em seu significado entre as dinastias Ch'in e Han e recebeu especulações por parte de algumas doutrinas dualistas do mundo ocidental. No entanto, desapontando estas, seu significado original se refere aos dois lados do ser manifesto e sua mutação, é o iluminado e o sombrio, o norte e o sul, fases do ciclo de evolução. Anterior ainda ao T'ai Chi, é o princípio Wu Chi, simbolizado por um círculo vazio.
A compreensão destas ideias é fundamental para a purificação mental, necessária para uma correta reflexão sobre o profundo texto do I Ching, que é simples em sua essência.
Outro tema dentro do I Ching é sua teoria das ideias, que assim como nos ensinamentos de Lao-Tse e Confúcio, expressa que o mundo visível e material é apenas uma imagem, um resultado do mundo verdadeiro. Isto é muito interessante, principalmente se comparado com os mesmos ensinamentos expostos por Platão na Grécia.
O I Ching busca a harmonia e proporciona uma leitura intensa, que se contrasta com a literatura de entretenimento, vazia de sentido. O Livro das Mutações atravessou milênios e não é em vão que ainda representa um dos melhores exemplos da sabedoria humana.
Matéria publicada na EmDiv Magazine Kindle Edition - Maio 2012
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