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A Literatura Chinesa

O isolamento secular da China e a complexidade de sua cultura concorreram para que a literatura chinesa por muito tempo fosse incompreendida e ignorada pelo Ocidente. A partir do século XIX, o progressivo desenvolvimento dos estudos sinológicos permitiu o gradativo resgate dessa tradição literária, uma das mais fecundas e criativas do mundo.

Qualquer caracterização geral da literatura chinesa exige uma prévia distinção dos diversos elementos que a constituem. Em primeiro lugar, é preciso levar em conta a extrema complexidade da escrita caligráfica (ideogramática) chinesa, que, sobretudo na poesia, buscou produzir efeitos ao mesmo tempo visuais e sonoros. Essa característica propiciou, por um lado, uma tendência à máxima concisão e, por outro, o predomínio da literatura "culta", dada a dificuldade de tal escrita ser reproduzida em linguagem corrente. As peculiaridades da fonética chinesa fizeram até que a distinção entre poesia e prosa fosse muito menor do que em outras literaturas.

Outra peculiaridade da literatura chinesa é a inexistência de escritos épicos e mitológicos ou heróicos, em parte resultante da tendência da linguagem à essencialidade, mas devida também à implantação, desde as origens, de dois sistemas religioso-filosóficos, o confucionismo e o taoísmo, que não possuíam mitologia no sentido da tradição ocidental. A expansão posterior do budismo acentuou ainda mais essa tendência.

Frequentemente se afirma que a literatura clássica chinesa foi, em essência, tradicionalista, submissa a hábitos seculares. Essa observação, porém, é relativa, porque, se por um lado a ética confucionista marcou por dois mil anos o modo de vida da sociedade chinesa e impôs o respeito à tradição, por outro pode-se dizer que o taoísmo e o budismo propiciaram o surgimento de uma visão de mundo mais esotérica e mística.

Assim, os grandes autores da literatura chinesa não se limitaram a repetir "modelos", mas usaram-nos como meios para transmitir sua visão do mundo. A partir do século XIII, o contínuo surgimento de novos gêneros literários e o crescente uso da linguagem cotidiana em confronto com a "culta" encarnariam essa dialética, típica da literatura chinesa, da relação entre a criação individual e a tradição.

Embora os vestígios mais antigos da escrita chinesa sejam inscrições em ossos e carapaças datadas do século XVIII a.C., ainda não podem ser consideradas literatura, em vista de sua extrema brevidade. Só a partir da dinastia Zhou, no século XII a.C. teve início uma tradição literária.

A maior parte da literatura dessa época tinha um propósito didático. Exemplos típicos são os cinco jing (ching) ou livros clássicos, elaborados durante séculos e que constituíram a base dos ensinamentos de Confúcio. Desses cinco livros, o Shi jing (Shih Ching), ou Livro das odes, foi a primeira antologia poética chinesa; o Yi jing (I Ching), ou Livro das mutações, era um manual de fórmulas divinatórias; o Shu Ching, ou Livro da história, consistia numa coleção de documentos oficiais; o Chunqiu (Chun-chiu) ou As primaveras e os outonos descrevia, com detalhes, os costumes e os fatos políticos de 772 a 481 a.C., no estado de Lu, onde nasceu Confúcio; e o Li ji (Lü-shih), ou Memória dos rituais, era uma coleção de livros com descrições dos rituais religiosos, da celebração de casamentos, comemoração de datas festivas etc.

As primeiras obras de autoria individual foram o Dao-de jing (Tao-te Ching), ou Livro da razão suprema (o Tao), e o Lun yu (Lün-yü), conhecido como Analectas (conversas). O primeiro é atribuído a Laozi (Lao-tsé), considerado o fundador do taoísmo, e o segundo, a Confúcio. Ambos são resumos de suas doutrinas, realizados por discípulos, mas acredita-se que correspondam fielmente às concepções filosóficas de seus mestres.

Desses cinco clássicos, o mais importante do ponto de vista literário é o Shi jing. A obra, dividida em três partes, se compõe de 305 poemas originariamente recitados com acompanhamento de músicas e danças. Seu tom espiritualizado e sereno exerceu grande influência na poesia chinesa, que, em linhas gerais, deu sempre mais importância aos enfoques líricos do que aos narrativos e, quando narrativa, sua concisão foi pouco propícia a exaltações épicas.

Nas regiões meridionais, contudo, desenvolveu-se outro tipo de poesia que, embora também acompanhada por música, tinha acentos mais elegíacos e sombrios. 

Os últimos anos do período Zhou foram marcados pelo desmembramento do país em reinos feudais praticamente independentes. A reunificação do império foi obra da dinastia Qin, que, passados 15 anos, foi substituída pela Han (206 a.C.-220 da era Cristã). Sob seu domínio, a antiga tradição literária e o confucionismo refloresceram com o prestígio anterior. Consolidou-se, então, um modelo de linguagem culto, o wen-yen, que viria a dominar a literatura erudita até o século XX, mas cuja distância da língua falada se faria cada vez maior.

A poesia viu o surgimento de um novo gênero, o fu, que incluía elementos da prosa e padecia de certo maneirismo em suas complicadas composições. Contudo, muito mais importante para a evolução da literatura chinesa foi o Yue fu (Yüeh-fu), que empregava os temas das baladas populares.

Marcada pela elegância e despojamento, a prosa literária do período Han representou a perfeição do estilo e foi imitada por todos os escritores posteriores. Numa abundante produção de importantes obras filosóficas e políticas, destacam-se também os textos de caráter histórico produzidos na época.

Depois da queda da dinastia Han, houve uma nova fase de confusão política (220-618), na qual se sucederam numerosas revoluções e dinastias efêmeras. A vida cultural, porém, não se ressentiu com isso. O que mais distinguiu o período foi a preocupação com a beleza formal, patente tanto na poesia quanto na prosa.

A prosa foi-se tornando cada vez mais independente em relação aos modelos dos mestres do passado, sob o influxo da consolidação do budismo.

Com a dinastia Tang, a literatura chinesa conheceu uma de suas fases mais brilhantes, especialmente na poesia, que teve extraordinário florescimento graças à eclosão de novos gêneros poéticos, cuja lírica reflexiva tinha como tema as relações homem-natureza, sob influência do budismo.

Com a queda da dinastia Tang (618-960), a China novamente se dividiu em pequenos estados, reunificados pela dinastia Song. A produção literária da época foi muito estimulada pelo aperfeiçoamento da qualidade de reprodução.

Na poesia, dois estilos predominaram. A poesia erudita e tradicional foi representada pelo shi. O estilo mais cultivado era, entretanto, o ci, resultante da depuração da lírica popular, e que propiciou o aparecimento de artistas notáveis. Na prosa, cabe assinalar a proliferação da novela popular em linguagem fonética e o surgimento de algumas obras de história geral da China.

Fundada pelos invasores mongóis, a dinastia Yuan (1280-1368) trouxe a diversificação das atividades literárias. Digno de nota foi o surgimento da dramaturgia, que teve origem na representação das cerimônias religiosas. Também na poesia houve inovações: a mais importante foi a criação do sanqu (san-ch'u), um tipo de linguagem predominantemente popular.

 De novo dominado por uma dinastia exclusivamente chinesa, a Ming (1368-1644), o império foi unificado e o confucionismo restabelecido. Em linhas gerais, a literatura da época se caracterizou pelo culto dos clássicos do passado.

As conquistas literárias mais importantes se deram no campo da prosa narrativa e do teatro, cujos diálogos ganharam agilidade e vida. Mais refinada do que a do norte, a produção dramática do sul do império se fez presente em obras de grande qualidade.

Do ponto de vista cultural, a dominação Ching (1644-1912) - dinastia manchu de origem mongol - não interrompeu a continuidade literária. Pelo contrário, generalizou-se a imitação dos clássicos e expressou-se com original arrebatamento em suas descrições da natureza. A produção poética, no entanto, se afastou cada vez mais da tradição.

Em 1912, a proclamação da república propiciou uma grande revolução literária. As traduções se multiplicaram e os intelectuais se propuseram a reformar a literatura, se empenhando no abandono do estilo antigo e na aproximação da literatura ocidental. O primeiro passo do programa consistiu em abandonar a linguagem clássica para adotar a fonética; para isso, foram criados diversos grupos e revistas literárias.

As convulsões sociais da década de 1920 provocaram uma mudança no rumo das letras chinesas, que passaram a ser usadas, principalmente, como instrumento político.  Na década seguinte, um grupo de novelistas do nordeste da China alcançou grande popularidade. Durante a guerra entre a China e o Japão predominaram os escritos patrióticos e cultivaram-se todos os gêneros, principalmente entre os autores já consagrados.

Após a implantação da República Popular da China, em 1949, a literatura continuou a ser instrumento de divulgação de idéias políticas. O romance e o teatro, que então também seguiam as diretrizes políticas, fizeram-se representar por escritores de grande notoriedade.

Após a morte de Mao, o simbolismo poético, o arrojo da nova produção dramática e as reportagens jornalísticas representaram a nota dominante no ambiente literário, em que se pôde observar uma crescente influência dos autores ocidentais. Ao longo do século XX, submetida às constantes convulsões políticas, a literatura chinesa conseguiu, todavia, conservar seu frescor e sua capacidade de renovação, assim como os valores essenciais de sua longa tradição.

Matéria publicada na EmDiv Magazine Kindle Edition - Setembro 2011

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