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    Conventos e Mosteiros

    A fuga para o deserto, atitude tomada nos primeiros séculos da era cristã por penitentes que buscavam a perfeição espiritual e a união com Deus, deu origem a um amplo movimento de vida comunitária religiosa, que séculos mais tarde levou ao surgimento de grandes mosteiros e de ordens religiosas.

    Genericamente, tanto mosteiro quanto convento são locais que abrigam comunidades religiosas. Em geral, porém, emprega-se o termo mosteiro para o local onde vivem os monges, ou as monjas, das ordens mais antigas e mais fechadas.

    Os mosteiros são autônomos entre si, estão subordinados ao superior local, e no âmbito de sua comunidade religiosa, gozam de autonomia até em relação ao bispo. Convento designa mais comumente o edifício que abriga as ordens religiosas mais recentes ou as congregações, mais abertas. Os conventos subordinam-se a um superior geral ou provincial.

    Cristianismo: os primeiros ascetas cristãos refugiaram-se no deserto do Egito para fugir de perseguições ou para viver num lugar onde pudessem praticar a vida espiritual com total entrega, sem nenhuma concessão aos atrativos ou às preocupações do mundo. A princípio tais pessoas, chamadas eremitas ou anacoretas, tinham vida solitária, porém mais tarde passaram a habitar grutas ou casebres a pouca distância uns dos outros. Em fins do século III, santo Antão Abade orientou e canalizou as aspirações religiosas de muitos daqueles ascetas, que se uniram em certas práticas comuns e formaram comunidades, ou cenóbios.

    São Basílio Magno, bispo de Cesaréia de Capadócia, fundou no século IV diversas comunidades na Anatólia e redigiu uma regra na qual recomendou penitência mais moderada e maior ênfase no serviço à comunidade. No Ocidente, santo Agostinho reuniu alguns clérigos sob normas de vida comum, e são Martinho de Tours formou uma grande comunidade em Marmoutier, de onde partiram muitos monges para a Irlanda, onde formaram novas comunidades.

    O grande legislador da vida monástica no Ocidente foi são Bento de Núrsia, que traçou para seus monges de Monte Cassino, na Itália, uma norma que se tornou modelo clássico: moderação nas práticas de penitência, oração litúrgica comunitária mediante a recitação do ofício divino (salmos, hinos, orações) ao longo do dia e da noite; trabalho manual ou estudo na biblioteca do mosteiro, e o compromisso de três votos: de obediência ao abade, permanência no mosteiro e conversão de costumes, que implica os votos de pobreza, castidade e uso do hábito religioso.

    Essas comunidades estáveis constituíram um pólo de atração para todas as possibilidades latentes na vida rural. As necessidades de aprovisionamento deram origem a um vasto complexo agrícola e pecuário, no qual passaram a trabalhar os servos; a ordem e a perseverança dos monges facilitaram a introdução de novas técnicas, as quais, por sua vez, conduziram a melhores resultados econômicos. A cultura superior dos monges transformou os mosteiros em refúgios e propulsores do saber tradicional. Seu zelo religioso contribuiu para a evangelização da Europa e para a consolidação da autoridade do pontífice romano. Mas essas circunstâncias acabaram por conferir aos mosteiros um influente poder político, com risco justamente da mundanização que os primeiros anacoretas tinham procurado evitar.

    A progressiva concentração urbana inerente ao declínio do sistema feudal e ao auge da burguesia teve reflexos também no âmbito religioso, com a decadência dos mosteiros rurais e o surgimento das ordens mendicantes. Essas novas ordens, como as dos franciscanos e dominicanos, suprimiram o voto de permanência no mesmo local e adotaram uma orientação mais pastoral, especialmente dirigida para as missões entre os fiéis ou entre os hereges. Por não terem mais necessidade de auto-abastecer-se, e pela decisão de sair em busca do povo para pregar o evangelho, essas novas ordens abandonaram a idéia do mosteiro rural e passaram a se estabelecer nas cidades, em residências que receberam o nome de conventos.

    A Reforma suprimiu os mosteiros que se localizavam nas regiões convertidas ao protestantismo, mas a partir do século XIX eles foram restaurados nas áreas da Igreja Anglicana e da igreja evangélica francesa.

    Arquitetura monástica cristã: a origem das construções monásticas pode ser encontrada nas comunidades primitivas, que ergueram cercas defensivas a sua volta. Posteriormente, as celas passaram a ser apoiadas nesse muro, o que deixou um amplo espaço central para a igreja, o poço e alguma sala de uso comum, como o refeitório. Este foi o típico mosteiro grego que se difundiu pelo Oriente até o século XVIII. Nesse tipo de construção, a importância dos locais de uso comum contrasta com a simplicidade das celas individuais.

    O Ocidente seguiu o tipo de mosteiro aprovado por são Bento. O centro coordenador do mosteiro beneditino era o claustro, galeria existente em torno do pátio central, cercada de arcos, que estabelecia a ligação entre as diversas dependências e era usada pelos monges para meditação e orações. No centro do pátio costumava haver uma fonte, ou poço, rodeado de vegetação. Abriam-se para o claustro as portas da igreja, da sala capitular, do refeitório e da biblioteca, onde os monges estudavam e copiavam textos. O dormitório foi construído inicialmente sobre o refeitório, primeiro como peça única, de uso comum; depois surgiram as celas individuais.

    A entrada do mosteiro era feita por uma porta única, aberta no muro externo, junto à qual se encontravam a cela do porteiro, o parlatório para as visitas, e a hospedaria. Algumas vezes, em uma segunda construção eram instalados os quartos do abade ou do prior e, mais afastadas, as acomodações dos noviços e a enfermaria, esta geralmente dotada de jardim de plantas medicinais. Seguiam-se a despensa, as oficinas para trabalhos manuais e o cemitério.

    Abadias: a abadia é um grande mosteiro, às vezes berço ou patrocinador de outros, sob a autoridade eclesiástica de um abade, ao qual são concedidas determinadas prerrogativas. O tipo de construção da abadia até o século VII ficou documentado na planta da de Saint-Gall, na Suíça. Exemplos de construções de épocas posteriores são os mosteiros espanhóis de Silos ou de Poblet.

    As abadias visigodas espanholas seguiram as regras de santo Isidoro e são Frutuoso. As primeiras se encontravam em núcleos urbanos e obedeciam a uma estrutura bem organizada; as erigidas por são Frutuoso tinham feição rural e agrupavam-se em torno da igreja, com organização mais simples.

    No século X, a abadia de Cluny, na França, estendeu sua influência por toda a Europa, e chegou a ter grande número de mosteiros sob sua autoridade. Cluny foi de extrema importância para a evolução da arte medieval. No século XII fundaram-se na Europa numerosos mosteiros da reforma cisterciense. Apesar dos desejos de austeridade e pobreza dos cistercienses, os mosteiros foram enriquecidos com servos e com novas terras, e voltaram a ser centros do poder político.

    A decadência dos mosteiros era já patente no século XVI. Mesmo assim foram construídos, nessa época e mais tarde, mosteiros de grande porte, entre os quais o Escorial, nas imediações de Madri. A partir do Renascimento, os conventos passaram a ter maior importância cultural e artística, sem jamais alcançarem o esplendor das abadias e dos mosteiros medievais.

    A política de submeter as propriedades eclesiásticas ao direito comum, iniciada na Europa depois da revolução francesa, determinou a ruína e o desaparecimento de numerosos mosteiros, conventos e abadias. Muitos deles, no entanto, foram mais tarde restaurados e dedicados a fins culturais, ou novamente ocupados por comunidades religiosas.

    Religiões orientais: nas religiões orientais, o primeiro tipo de asceta foi provavelmente solitário ou eremita. A figura do sramanas (ascetas) já era conhecida dos povos pré-arianos da Índia (1500 a.C.), e nos primeiros tempos do hinduísmo, entre os séculos VII e III a.C., houve eremitas que viviam em grupos. Mas a vida comum organizada só começou para os hindus na Idade Média. No século XIX, Ramakrishna iniciou um movimento religioso integrador, que reconhecia nas grandes religiões uma mesma verdade universal e que unia a vida contemplativa à ação missionária e assistencial. Seu discípulo Vivekananda foi o grande organizador dessas missões e de mosteiros.

    O jainismo, uma das grandes religiões da Índia até o século XII, foi provavelmente a primeira a organizar a vida monástica sobre a base dos primitivos eremitas. Seu fundador, Mahavira, criou no século VI a.C. comunidades de monges e monjas, assistidos por servidores leigos que seguiam regras ascéticas menos rígidas. Os digambaras, um dos grupos em que se cindiu o jainismo no século I da era cristã, não aceitaram as comunidades femininas. A penitência dos monges chegou às vezes a rigores extremos, com casos de jejum até a morte.

    Foi, contudo, o budismo a religião oriental que mais se caracterizou por suas comunidades monásticas. Tal como ocorre com os mosteiros beneditinos no Ocidente cristão, sua austeridade é moderada. No início, os ascetas budistas eram peregrinos solitários, e só se recolhiam em comunidades durante a estação das chuvas. Nos séculos VI e V a.C. foram estabelecidos os costumes monacais, de acordo com os ensinamentos de Buda: o abandono de todo interesse material, o adestramento mental para abandonar as opiniões falsas, a concentração no nada até o completo desaparecimento das sensações e conceitos.

    No século III a.C. já tinham sido estabelecidos na Índia numerosos mosteiros budistas, em dois tipos de construções: escavadas em rochas, no sul da Índia, ou erguidas com tijolos e pedras, no norte. Com o apoio de ricos comerciantes, no século VIII foram construídos grandes mosteiros, como os de Nalanda, Odantapura, Vikramasila ou Nagarjunakonda. Esses grandes complexos transformaram-se em centros econômicos e culturais, e provocaram o abandono dos pequenos mosteiros rurais. As invasões muçulmanas dos séculos XI a XIII provocaram a fuga de alguns monges para o Tibet, onde fundaram novos mosteiros, muitos ainda existentes, embora severamente reprimidos pelos chineses, que ocuparam o país em 1950.

    Os mosteiros do Sudeste Asiático continuam a ser centros de uma devoção popular que atribui grande importância às comunidades consagradas a uma vida santa. Tais mosteiros são rodeados por muros, para preservar o isolamento, mas o povo é admitido em seu interior para praticarem atos de devoção ou receber ensinamentos. No recinto existem um santuário com a imagem de Buda e uma sala de reuniões onde os monges pregam para pequenos grupos. O conjunto é completado com as celas dos monges e dos hóspedes, uma escola e alguns pagodes e capelas que abrigam relíquias sagradas.

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