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:: Quinta-feira, 24 de Abril de 2014 ::
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    Os Povos Ameríndios

    Quando chegaram ao continente americano, os conquistadores europeus encontraram povos que, embora possuíssem certa unidade étnica, apresentavam enormes diferenças sociais e culturais. A dispersão geográfica e os contextos históricos diversos faziam com que civilizações complexas em todos os aspectos (como os astecas e os incas) coexistissem com tribos nômades de organização e modo de vida muito simples (como os peles-vermelhas), e até com comunidades primitivas de características ainda do mesolítico (como a maior parte dos índios brasileiros).

    São chamados de ameríndios quase todos os representantes daqueles povos que já existiam nas Américas antes dos descobrimentos do século XVI e da colonização européia. A exceção indiscutível são os esquimós, de traços étnicos estritamente mongólicos e que têm seu habitat tanto nas costas árticas da América quanto na Ásia.

    A antiga divisão da espécie humana em quatro raças - brancos, negros, amarelos e vermelhos -, que teve longa tradição de uso na Europa, tornou-se obsoleta depois de importantes contribuições da antropologia contemporânea. Os povos ameríndios, que eram classificados como de raça vermelha, na verdade têm parentesco étnico com os habitantes do leste e do sudeste asiáticos. Fica claro, atualmente, que a denominação "peles-vermelhas", usada pelos exploradores europeus, deve-se à tinta vermelha com que os primeiros nativos da América por eles encontrados pintavam o rosto.

    Embora todos os povos ameríndios sejam essencialmente mongolóides, há grandes diferenças de traços físicos entre uns e outros, às vezes no mesmo subcontinente. A estatura varia entre baixa-mediana e alta, sendo geralmente alta entre os índios das pradarias da América do Norte e os patagões do extremo meridional da América do Sul, e baixa ou mediana na maioria dos outros casos (1,55 a 1,60m em média entre os maias e outros povos centro-americanos, 1,70 a 1,74m entre os yumas e certos índios das pradarias da América do Norte, 1,68 a 1,80m entre os patagões).

    Outras características notórias dos ameríndios é a tendência a terem as mãos e os pés pequenos, a cintura pouco marcada, a coloração da pele geralmente pardo-amarelada (embora em alguns casos chegue ao amarelo quase branco), o cabelo preto e escorrido, pouca pilosidade facial e corporal. Não é comum a calvície ou cabelos brancos. O rosto, de modo geral, é largo: as populações ameríndias são braquicéfalas, exceto alguns grupos do leste da América do Norte e das selvas amazônicas, predominantemente mesocéfalos, ou os fueguinos e uru-chipayas, quase dolicocéfalos. O nariz é carnudo e as maçãs do rosto, acentuadas. Os olhos, de um castanho ora mais claro, ora escuro, nem sempre apresentam nos adultos o característico formato mongólico.

    O fator sangüíneo MN é mais comum entre os ameríndios que em qualquer outro grupo racial. Apesar de haver na Ásia os maiores índices do mundo de grupo sangüíneo B, este se mostra raro nas populações ameríndias, assim como o A, que só apresenta alguma incidência na América do Norte.

    De acordo com os indícios ora disponíveis e pesquisados, o povoamento da América teve início entre 40000 e 20000 a.C., quando viajantes procedentes da Ásia atravessaram o atual estreito de Bering no fim da glaciação de Würm, ocasião em que o nível do oceano era mais baixo e o Alasca se ligava à Sibéria por uma nesga de terra firme. Há sinais de que a ocupação humana se deu de norte a sul do continente, ao longo de 200 séculos. Entre 10000 e 5000 a.C., navegadores vindos do atual Japão, do Sudeste Asiático e da Polinésia teriam chegado casualmente às costas americanas do Pacífico, o que explicaria a excelente cerâmica do sítio arqueológico de Valdívia, no Equador. Essa cerâmica, que surgiu ao redor de 3000 a.C., assemelha-se à jômon, do neolítico, nas ilhas nipônicas. Por volta do ano 1000 da era cristã, viajantes escandinavos parecem ter chegado, por sua vez, às costas da Terra Nova e do Labrador.

    Há controvérsias, entre antropólogos americanos e europeus, estes acompanhados por latino-americanos, sobre se as culturas ameríndias se desenvolveram autonomamente (opinião dos primeiros) ou sob influência desses contatos com povos de origens tão distantes. Os argumentos utilizados são igualmente discutíveis. As diferenças de traços entre diversos grupos de povoadores ameríndios constituem outro motivo de muitas hipóteses ainda não esclarecidas. O certo é que asiáticos pré-mongolóides e mongolóides chegaram em várias levas, até mais ou menos 10000 a.C. A diversidade de habitats do continente e o isolamento de muitos grupos entre si são também fatores que podem explicar as discrepâncias existentes, conforme as adaptações que se fizeram necessárias: os índios do planalto boliviano, por exemplo, têm a caixa torácica muito maior que a dos litorâneos, resultado indiscutível de sua adaptação à atmosfera rarefeita em que têm de viver.

    Povos da América do Norte

    Os ameríndios da América do Norte se distribuíam pelo território onde ficam hoje os Estados Unidos, o Canadá e o norte do México. Embora fosse muito variado o nível atingido pelas muitas culturas da região, nenhuma chegou ao estágio das civilizações da América Central, que antropologicamente devem ser tratadas à parte.

    Costa noroeste. A costa norte do Pacífico, do sul do Alasca ao norte da Califórnia, apresenta um traçado muito irregular, repleto de ilhas e reentrâncias, com clima úmido e relativamente temperado, o que favorece a existência de grandes bosques perto do litoral. Era o habitat de povos voltados para a pesca, especialmente do salmão. A profusão desse peixe na região gerou um fenômeno semelhante ao produzido pelo desenvolvimento da agricultura intensiva em outros povos: o excedente alimentar permitiu que alguns integrantes da comunidade se dedicassem a tarefas que não eram diretamente produtivas.

    Conseqüentemente, os pescadores da costa noroeste criaram uma organização social e religiosa bastante complexa, constituindo as sociedades artisticamente mais refinadas entre todas as localizadas ao norte das civilizações centro-americanas. A principal unidade social era o povoado.

    As técnicas que melhor dominaram foram as relacionadas com a pesca e o trabalho da madeira: construíam canoas capazes de acomodar várias dúzias de remadores, assim como variados utensílios de pesca; faziam barragens para a captura do salmão; conheciam as técnicas de conservação do pescado; e viviam em grandes habitações multifamiliares, feitas de troncos, com forma retangular. Quase não utilizavam peles no vestuário, se bem que ocasionalmente praticassem a caça de ruminantes. Fabricavam mantas de fibra da cortiça do cedro, que coloriam com diversas tinturas e decoravam com desenhos estilizados e complexos.

    Talvez a mais conhecida de suas manifestações artísticas tenha sido o entalhe de grandes postes totêmicos.
    O traço cultural mais característico desses povos era o potlatch, celebração em que se realizava uma profusa exibição de riquezas, em muitos casos destruídas no momento culminante da festa. A abastança e o prestígio social mediam-se pelo aparato com que se celebrava o potlatch.

    A área cultural do Yukon e do Mackenzie compreende as bacias desses dois grandes rios, no Alasca e no noroeste do Canadá. São territórios interiores e localizados em latitudes elevadas, de clima subártico e difíceis condições de subsistência. Viviam nessas terras frias povos atapascos, caçadores e pescadores, culturalmente menos desenvolvidos que os litorâneos. Seu principal meio de sobrevivência era a caça do caribu. Dispunham de canoas de cortiça e trenós puxados por cães, bem como raquetas de andar na neve. Moravam em tendas cônicas de pele ou de cortiça, chamadas tipis, e usavam roupas de pele.

    Fato intrigante é que a língua dos povos atapascos pertence ao grupo nadene, aparentada, portanto, com a dos apaches e navajos, povos que vivem muito mais ao sul, em condições naturais inteiramente distintas. É provável que todos eles proviessem de uma invasão asiática tardia, que atravessou o estreito de Bering bem depois das outras.

    Os povos que ocupavam as três zonas geográficas abarcadas pela área cultural ocidental apresentavam como característica geral um desenvolvimento inferior ao de seus vizinhos e, na verdade, um padrão de vida bastante primitivo.

    Por ocasião da chegada dos colonizadores europeus, a Califórnia era habitada por povos que formavam um mosaico étnico e lingüístico. Não conheciam a agricultura, moravam em simples abrigos temporários e quase não usavam roupa. No entanto, tinham especial habilidade em trabalhos de cestaria.

    Os habitantes do planalto ocidental da América do Norte, que viviam nas verdes bacias dos rios Frazer e Columbia, eram, como os da Califórnia, bastante variados quanto à língua, mas cultural e socialmente pouco desenvolvidos. Sobreviviam da pesca do salmão, da caça e da coleta de frutos silvestres. Foram notáveis pelo pacifismo e caráter igualitário de sua sociedade.

    As condições de vida particularmente duras da árida bacia do lago Salgado (Salt Lake) tornaram os shoshones um dos povos mais primitivos entre os ameríndios. As famílias viviam isoladas, e só ocasionalmente várias delas se uniam para a caça. Coletores, e apenas circunstancialmente caçadores, a introdução do cavalo, trazido para a América pelos europeus, transformou radicalmente o modo de vida de alguns grupos, permitindo-lhes se transformarem em caçadores de bisão.

    Culturas do sudoeste. As terras áridas que hoje constituem o sudoeste dos Estados Unidos e o norte do México viram florescer, em passado remoto, complexas culturas associadas ao cultivo do milho, primeiro o  silvestre (fase cochise), e pouco depois o híbrido. Chegou-se a pensar que tivesse sido nessa região americana que se produziu a primeira revolução agrícola, que daria origem às principais culturas do continente. Parece mais provável, no entanto, que o cultivo do milho, assim como, bem posteriormente, o de outras espécies, tenha começado na América Central.

    Ao redor de 300 a.C. apareceram várias culturas baseadas no cultivo, com irrigação, do milho híbrido: em torno do século I da era cristã, no Arizona e no Novo México, desenvolveu-se a cultura mogollon e, no sul do Arizona, a cultura hohokan, da qual restam vestígios de um complexo sistema de represas e canais de irrigação, construídos nos vales dos rios Gila e Salgado. A cultura anasazi (em navajo, "os antigos") estendeu-se pelo Colorado a partir do século IV da era cristã, tornando-se a mais estudada, particularmente devido aos sítios arqueológicos de Mesa Verde, Pueblo Bonito e outras. Distinguem-se fases muito diferenciadas: a dos cesteiros, do ano 300 a 700, quando as técnicas da cestaria atingiram o auge, e a dos índios pueblos, em que a cerâmica e, sobretudo, a arquitetura atingiram grande desenvolvimento. Esses povos chegaram a construir complicados edifícios de alvenaria, com vários pavimentos, que por si só constituíam um povoado e se situavam, em geral, em desfiladeiros quase inacessíveis.

    Ligada aos povos centro-americanos (pirâmides escalonadas, jogos de péla), a cultura hohokam desapareceu por volta de 1100, absorvida pelas outras duas assinaladas e que por alguns séculos mais continuaram vivas. Tudo indica que uma fase de grandes secas levou as culturas do sudoeste ao declínio: seus descendentes (índios zuñi, procedentes da cultura mogollon, e pima e papago, da hohokam) achavam-se em nível de desenvolvimento inferior quando os europeus ocuparam suas terras.

    Entre os povos que posteriormente ocuparam o sudoeste sobressaem os apaches e navajos, que, vindos do Yukon-Mackenzie, noroeste do Canadá, chegaram depois do século X a essa região. Pertencentes ao grupo lingüístico nadene, como os atapascos, dedicavam-se à coleta e à caça, realizando incursões predatórias contra os povos agricultores da vizinhança. Os navajos aprenderam as técnicas agrícolas dos índios pueblos, tornando-se sedentários. Outros povos que habitaram a região foram os yumas, do grupo lingüístico hoka, que, como o uto-asteca, estendia-se pelo norte do México.

    A região das pradarias é uma enorme extensão, quase toda plana, que se estende do Mississippi, a leste, até as montanhas Rochosas, a oeste, e desde aproximadamente a atual fronteira do Canadá, ao norte, até o Texas, ao sul. Seus habitantes eram de grande heterogeneidade lingüística --  a língua comanche pertencia à família centro-americana uto-asteca --, apesar dos freqüentes contatos que mantinham. Alguns eram sedentários, como os mandans, e outros nômades, como os dakota (ou sioux) e os kiowas. Os povos sedentários praticavam uma agricultura baseada no milho, na abóbora, na ervilha e no tabaco, trabalho que os homens alternavam com a caça.

    A introdução do cavalo, nos séculos XVII e XVIII, possibilitou a caça do bisão, ocorrendo um fenômeno de readaptação de alguns povos a um intenso nomadismo. Desse modo, durante um século e meio desenvolveu-se nas pradarias uma cultura adaptada em todos os aspectos -- cerimônias, crenças, utensílios, instrumentos de caça, moradia -- ao cavalo e à caça do bisão. A guerra também adquirira grande importância para essas tribos, cujos chefes costumavam ser veteranos guerreiros, de coragem comprovada.

    Dois importantes povos partilhavam o território dos bosques em torno dos grandes lagos e no litoral atlântico do Canadá e da Nova Inglaterra: os iroqueses e os algonquinos, estes últimos nômades ou seminômades. Sua economia baseava-se quase exclusivamente na caça e na pesca. Viviam bastante dispersos e só se reuniam em celebrações específicas nas quais invocavam as duas forças opostas que, segundo sua mitologia, governavam o mundo: Gluskap e Malsum. Gluskap era a forma criadora, comunicando-se com os homens mediante xamãs -- feiticeiros -- ou durante o sono.

    Já a vida dos iroqueses, pelo menos em suas áreas meridionais, estava voltada para o cultivo do milho e da ervilha, em alguns pontos acrescendo-se a coleta do arroz silvestre. Sua dieta se completava com a coleta de bagas, a caça e a pesca. A organização social dos iroqueses tem sido objeto de estudo antropológico minucioso, por possuir interessantes peculiaridades. Todas as unidades familiares reuniam-se em uma confederação, cabendo a cinqüenta sachems hereditários todas as decisões referentes à política externa. A unidade social básica era a família ampla,  que residia numa grande casa comum, retangular, com teto de cortiça de bétula e governada pelas mulheres mais idosas. Propriedade, relações familiares e herança eram regidas pela via matrilinear. Os povoados, de caráter permanente, localizavam-se junto aos cursos de água, protegidos por uma paliçada de estacas.

    Vindos do sul, os iroqueses deslocaram-se mais tarde para os assentamentos em que os europeus os conheceram. Isso explica sua superioridade cultural em relação aos algonquinos, na época do desembarque dos colonizadores nas costas do Atlântico. Embora os algonquinos continuassem predominantes no oeste, nas zonas limítrofes às dos atapascos, aos poucos os iroqueses os vinham alijando de suas terras.
    Povos do sudeste. Os territórios ocupados pelos povos do sudeste situavam-se ao sul dos anteriores e a leste das pradarias, entre o Mississipi, o golfo do México e o litoral sul-atlântico dos Estados Unidos. Era acentuada a influência das culturas centro-americanas e do Caribe. Assim, o povo natchez constituía uma teocracia guerreira, com numerosos escravos. Sua economia baseava-se no cultivo do milho, mas também na caça e na coleta. Erguiam templos sobre colinas (mounds) que lembram as grandes construções religiosas centro-americanas.

    Os creeks também eram povos guerreiros e possuíam escravos. Ao lado dos cherokees, dos seminolas, choctaws e chickasaws, chegaram a formar uma confederação que, em muitas ocasiões, celebrou pactos com franceses e ingleses, demonstrando ampla capacidade de adaptação.

    Em toda a área cultural do sudeste os povoados apresentavam estrutura complexa, tendo ao centro uma praça onde se situavam os edifícios públicos e religiosos.

    Os índios da América do Norte hoje. No início da colonização européia no litoral atlântico dos Estados Unidos e Canadá, existiam em ambos os territórios mais de 200 povos indígenas, que totalizavam uma população de aproximadamente 1.150.000 habitantes. À medida que os invasores brancos se expandiram, muitos povos foram extintos e outros estiveram bem perto disso.

    Na década de 1980 eram reconhecidos como índios, nos Estados Unidos e Canadá conjuntamente, mais ou menos um milhão de cidadãos. Comparada com o mínimo a que chegou nos começos do século XX -- nos Estados Unidos, menos de 300.000 --, a população indígena da América do Norte retomou um rápido crescimento, que tende mesmo a acentuar-se com o tempo. Há reservas espalhadas por todo o território dos dois países, embora as mais importantes se situem nos estados do Novo México e Arizona. Um duplo sistema de autoridade se exerce sobre os índios das reservas: de um lado, os remanescentes de sua organização tribal, como o conselho da tribo e seu chefe, de outro lado o governo federal. Muitos índios vivem fora das reservas, mesclados com o resto da população americana; os que nelas permanecem dedicam-se ao artesanato, atividades agrícolas e pecuária. O turismo é boa fonte de renda para os índios do sudoeste dos Estados Unidos, enquanto no norte do Canadá é comum que trabalhem como guias nas regiões árticas.

    A grande maioria dos índios se diz hoje cristã, embora numerosos grupos pratiquem religiões sincréticas, muito peculiares, como é o caso da Igreja Indígena Americana, em que a ingestão do peiote, poderoso alucinógeno, é um dos sacramentos.

    América Central

    A região antropológica da América Central estende-se pelo centro e sul do México de hoje e pelos países centro-americanos até a Costa Rica. Essa área compreende grande variedade de zonas climáticas e ecológicas, podendo-se afirmar que fosse povoada desde tempos pré-históricos, embora a principal concentração humana ocorresse nos vales do México, Oaxaca, Jalisco e Guatemala.

    Eram muito variadas as características dos povos da América Central, que falavam centenas de línguas. Todos, no entanto, possuíam uma série de componentes culturais comuns: constantes arquitetônicas -- pirâmides escalonadas, quadras para jogos rituais de péla --, calendário, registros históricos, complexa religião em que quase sempre havia um deus da chuva e um herói civilizador, notável desenvolvimento urbano, rígida estratificação social e uma agricultura baseada no complexo milho-feijão-pimenta-abóbora.

    Na América Central a revolução neolítica teve início entre 5000 e 4000 a.C., mas foi por volta de 3500 que, paralelamente a certo resfriamento do clima e aumento das chuvas, passaram a ser cultivadas as espécies que ainda constituem a base da alimentação do homem centro-americano. Nos começos do segundo milênio havia povoados de grupos sedentários, cuja subsistência dependia fundamentalmente da agricultura.
    Período pré-clássico. Deu-se o nome de período de formação, ou pré-clássico, àquele que transcorreu aproximadamente de 1500 a.C. até o início da era cristã. Foi nesse período que o homem centro-americano se tornou sedentário, desenvolvendo técnicas agrícolas de grande complexidade, aprendendo a cerâmica e a tecelagem, criando as primeiras cidades.

    A civilização olmeca surgiu em meados do século XII a.C., na planície junto ao litoral do golfo do México. Embora esse povo ainda seja mal conhecido, sabe-se que tinha sacerdotes e classes sociais bem definidas, centros cerimoniais e de culto. Os olmecas já conheciam o calendário e a numeração e praticavam o jogo da péla, elementos culturais que se tornariam característicos de todas as civilizações centro-americanas. Possuíam ainda grande domínio da expressão artística, como se pode apreciar nas enormes cabeças esculpidas na pedra e em estatuetas de jade. Encontraram-se importantes depósitos arqueológicos: La Venta, grande centro religioso, e Tres Zapotes, importante núcleo populacional, ambos na parte sul do golfo do México.

    Do começo da era cristã até o século X, as civilizações centro-americanas tiveram seu período clássico, alcançando excelente desenvolvimento artístico e urbano.

    A partir do final do século IV da era cristã, desenvolveu-se no vale do México a primeira das grandes civilizações centro-americanas do período clássico. O povo que construiu Teotihuacan dominou a totalidade do vale, e sua influência cultural -- e talvez seu controle político -- chegou até a atual Guatemala. Suas edificações arrolam-se entre os mais empolgantes vestígios de civilizações antigas ainda existentes no mundo. A destruição de Teotihuacan parece ter-se dado no ano 650, mas só em torno de 900 a cidade veio a ser tomada pelos toltecas.

    Aparentadas em muitos traços com a civilização teotihuacana e, por conseguinte, com a olmeca, foram as de El Tajín, na costa do golfo do México, e de Monte Albán, em Oaxaca, que também não chegaram ao princípio do século X.

    Durante o período clássico desenvolveu-se a civilização dos maias, a mais original e avançada da América Central -- e também uma das que encerram maiores mistérios. De início, sua área geográfica limitava-se ao pequeno planalto da Guatemala, mas depois estendeu-se ao de Chiapas e à península de Yucatán.

    Em sua origem, os maias não constituíam uma civilização urbana. Dependiam da agricultura de subsistência em glebas isoladas, que após algumas colheitas se empobreciam, impondo constante procura de novas terras. Tais circunstâncias econômicas não propiciavam a criação de centros urbanos. Estes, no entanto, surgiram em torno dos templos cerimoniais, construídos no alto de pequenas colinas. É provável que o sistema de cultura agrícola, que esgotava as terras, tenha sido a causa do súbito desaparecimento das cidades, que depois de abandonadas sem razão aparente, eram cuidadosamente recobertas de terra e reedificadas em outro lugar.

    O tipo físico dos maias é ainda hoje facilmente reconhecível. Comparando-o ao dos povos vizinhos, nota-se que têm cabeça em geral mais arredondada, o nariz mais proeminente e o rosto mais chato.
    Período pós-clássico. O período clássico acabou abruptamente por volta do século X, devido, ao que se crê, a invasões de povos provenientes do norte. Teve início em seguida o chamado período pós-clássico, em que prosseguiu a tendência ao desenvolvimento de grandes cidades e se acentuou um significativo traço guerreiro, tanto nos costumes como na religião. Os antigos deuses da chuva passaram a concorrer com os deuses da guerra e tornaram-se comuns sacrifícios humanos para saciar a sede divina. Os povos tolteca e asteca, que se sucederam, ocuparam grandes territórios a partir do vale do México. Por ocasião da chegada dos espanhóis, a confederação asteca estava no apogeu de seu poder, e a conquista truncou subitamente uma civilização em pleno florescimento.

    Índios centro-americanos hoje. A mestiçagem generalizou-se nos diversos países da América Central. Entretanto, há ainda núcleos indígenas mais ou menos puros na região, caracterizados pelo uso de seus idiomas e pelas comunidades que formam. Entre as numerosas línguas que existiram na área, as extintas seriam em maior número que as ainda faladas, mas só no México se utiliza uma meia centena delas, com destaque para as dos grupos uto-asteca e maia, seguidas pelo otomi, o zapoteca e o mixteco. Como no México, em todos os atuais países centro-americanos há uma parte da população, maior ou menor, que se exprime em idiomas autóctones, sendo representativa a parcela dos que desconhecem o espanhol.
    Só muito recentemente as comunidades indígenas da região passaram a introduzir em sua agricultura algumas técnicas modernas. De modo geral, continuam a ocupar e usar a terra extensivamente, acrescentando ao milho e feijão a cana-de-açúcar, o café e o arroz.

    O habitat é bastante variável, porém são mais comuns as aldeias com um núcleo central, praça onde ficam a igreja e a administração, e se realizam feiras semanais. A casa, dependendo do lugar, ora é apenas choupana de palha, ora, como em Yucatán, tem paredes de tijolos e teto de palha, um cômodo apenas e a cozinha, quase nenhum mobiliário; para dormir, as pessoas usam redes e esteiras.

    A cerâmica e a cestaria representam o artesanato mais constante, embora em muitos casos este tenha sido descaracterizado pela semi-industrialização. Acontece o mesmo com a tecelagem, conquanto ainda se empregue o tear artesanal. Nas planícies os homens vestem camisas e calças brancas, de algodão, e sandálias; as mulheres, blusa, saia, com freqüência um xale que recorda a presença espanhola. Nas montanhas, o poncho de lã completa o vestuário.

    O autogoverno das comunidades indígenas regula suas questões internas, inclusive de divisão do trabalho, e nem sempre é reconhecido pelos estados nacionais. As comunidades, não obstante o padrão de vida muito modesto, valorizam as despesas de celebração, as vestimentas e as refeições festivas, depois das colheitas. Para estas últimas, como para os produtos artesanais indígenas, os pequenos mercados são essenciais. Finalmente, a religião é quase sempre sincrética, mesclando ritos e costumes autóctones às crenças e cerimônias cristãs.

    América do Sul

    Sabe-se hoje que o povoamento da América do Sul se deu muito depois do das Américas do Norte e Central. Bandos de caçadores teriam descido do norte pelo istmo de Panamá, espalhando-se aos poucos em direção ao sul e ao leste. Por volta de 10000 a.C. o subcontinente já estaria todo povoado. A julgar pelos sambaquis -- restos das conchas de mariscos -- encontrados tanto na costa do Atlântico como na do Pacífico, cinco milênios antes da era cristã esses lugares achavam-se habitados por povos que se alimentavam de tais frutos do mar. Um milênio depois, o feijão e a abóbora já eram cultivados no litoral do Pacífico, acrescentando-se em seguida o algodão. A sedentarização pela agricultura completou-se, para os primeiros povos, com a adição do milho, por volta do segundo milênio. Aproximadamente em 1800 a.C., nas terras andinas e no litoral próximo, apareceu a cerâmica, iniciando-se assim o período que os arqueólogos denominaram formativo.

    As culturas mais complexas da América do Sul, comparáveis nesse sentido às centro-americanas, foram as que apareceram nos Andes centrais. As condições climáticas da costa peruana, quase sem chuva, permitiram a conservação de inúmeros vestígios dos diversos povos que ali viveram, possibilitando a reconstrução aproximada de sua história cultural ao longo de milênios. Até certo ponto em paralelismo com a evolução das civilizações centro-americanas, as culturas centro-andinas tiveram um período formativo, um período clássico e o pós-clássico, de que Tiahuanaco poderia ser o princípio. Esse último período seria bruscamente interrompido pela conquista espanhola do império inca.

    Entre 1800 e 300 a.C., aproximadamente, transcorreu o período formativo. A população, com o cultivo do milho, sedentarizara-se, e surgiu a cerâmica. O maior esplendor verificou-se nove séculos antes da era cristã, com a cultura chavín, na costa norte do atual Peru. Em alguns de seus aspectos, ela parece ter sido influenciada pela distante cultura olmeca. No litoral peruano apareceram outros focos culturais que, por sua vez, mostraram forte influência da civilização chavín.

    Período de desenvolvimento regional. Um verdadeiro período clássico observou-se entre os séculos V a.C. e VII da era cristã, desenvolvendo-se autonomamente várias culturas: a mochica, na costa norte do Peru atual, a de Nazca, em sua costa sul, e muitas outras nos diversos vales litorâneos. Encontrou-se enorme quantidade de objetos de barro (huacos) enterrados nas tumbas, com ilustrações de cenas do dia-a-dia que serviram de base aos pesquisadores para reconstruir a vida dessas sociedades.

    Uma cultura toda originária do planalto expandiu-se a partir do século VII, configurando um império que teve por capital a cidade de Tiahuanaco, na orla sul do lago Titicaca. Notou-se sua influência do norte do Peru até o norte do Chile. Diversos estilos artísticos tenderam à unificação. Os centros urbanos aumentaram suas áreas, e as sociedades tornaram-se mais hierarquizadas.

    No século IX caiu o império de Tiahuanaco e o mapa político dos Andes centrais fragmentou-se novamente. O território dividiu-se em várias entidades autônomas. A cidade de Chanchán, capital do reino chimú, na costa norte peruana, teve enorme desenvolvimento: as ruínas de suas construções de adobe estendem-se por uma superfície de mais de trinta quilômetros quadrados. Houve ainda a confederação de Chancay, no litoral central, e o reino Chincha, ao sul.

    Nessa fase a cerâmica perdeu o melhor de sua criatividade artística. Em compensação, aperfeiçoaram-se os trabalhos com metal -- ouro, prata, cobre, bronze -- e as técnicas de tecelagem. No planalto em torno do lago Titicaca, apareceu uma cultura de que restam numerosas chullpas, enigmáticas torres funerárias feitas de pedra.

    Em apenas cem anos de sua história o povo inca passou de alguns exíguos territórios nos  arredores de Cuzco, no começo do século XV, à posse de toda a região dos Andes centrais, do sul da Colômbia ao noroeste da Argentina. Em 1533, ao cair sob a conquista espanhola, essa sociedade desapareceu como a última cultura autóctone das Américas.

    Por ocasião da chegada dos espanhóis, o sul dos Andes era habitado pelos araucanos, formados principalmente por três grupos: picunche, mapuche e huiliche, assemelhados na língua e na cultura. Agricultores e pastores, receberam influência das civilizações andinas, mas se mantiveram independentes. Os povos diaguita-calchaquies, que ocupavam o noroeste da atual Argentina, integrados com o meio andino, criavam lhamas, cultivavam milho e batata e fortificavam com pedra suas aldeias. Salientam-se, em sua cerâmica, as urnas funerárias. Os diaguitas, que viviam no norte do Chile atual, tinham cultura semelhante.

    A denominação circuncaribe foi dada pelos antropólogos à área cultural de pequenos estados que se estabeleceram na costa norte da atual Venezuela, nas Guianas de hoje, em parte da Colômbia e do Equador atuais, da América Central e das grandes e pequenas Antilhas.

    De traços culturais muito menos complexos que os das culturas andinas e centro-americanas, os estados dessa área tinham organização política de caráter teocrático e classes sociais bem delimitadas, com diversos graus de chefia, homens livres e escravos. Todos esses povos praticavam a agricultura, embora só os aruaques utilizassem a irrigação. O artesanato e o comércio dos metais estimulou os transportes, especialmente a navegação junto às costas do Pacífico. Na parte sul da região, a cerâmica e a ourivesaria se desenvolveram, sob influência das civilizações andinas.

    De modo geral, os povos das selvas tropicais constituíram - e muitos constituem ainda - pequenas sociedades coletoras ou de escassa agricultura de subsistência. Representavam exceção, nesse quadro, os dos contrafortes orientais dos Andes, do Equador à Bolívia, que tiveram contato com as civilizações andinas e teciam algodão, tinham animais domésticos e cerâmica. Guerreiros ferozes, para eles era símbolo de prestígio a posse de cabeças cortadas aos inimigos, que os jívaros aprenderam a reduzir a um terço ou menos que o tamanho natural. Entre os numerosos grupos de tupis-guaranis das selvas brasileiras, a belicosidade também era constante, incluindo o canibalismo.

    Um artesanato elaborado encontra-se particularmente entre os indígenas do alto Xingu, mas um centro de excelente cerâmica, com motivos geométricos e antropomórficos, é a ilha de Marajó, onde se considera ter existido uma civilização relacionada com as andinas e chamada Anatutuba. Além da cerâmica, deixou como vestígios estranhas tumbas e terraços abandonados muito antes de chegarem os portugueses.

    No Chaco, entre o rio Paraguai e os Andes, sempre alagado no verão chuvoso, guaranis e outros povos viviam da pesca coletiva e de uma leve agricultura que não preparavam queimando a vegetação natural, mas limpando-a a espaços, antes das chuvas. No extremo sul do continente, as difíceis condições geográficas impuseram o nomadismo a índios chonos, alacalufes e yahgans, de tipo físico bem diferente dos demais povos das Américas, com o rosto mais prognata. Alimentavam-se dos frutos do mar. Também nômades eram os grupos encontrados nos pampas -- charruas, querandis, tehuelches, puelches, onas -- caçadores que usavam arco e flecha e boleadeiras. Como em outros aspectos que lembravam os ameríndios norte-americanos, logo adotaram o cavalo, o que aumentou sua mobilidade.

    Exterminados na Argentina e no Chile, dispersos e isolados nas selvas amazônicas, os ameríndios da América do Sul só se apresentam em populações regulares nos Andes Centrais -- Equador, Peru e Bolívia -- , onde compõem a maior parte do campesinato. São quíchuas, aimarás e uru-chipayas, estes em poucas centenas, nas proximidades do lago Titicaca. As características físicas desses povos são homogêneas e boa parte de seus traços culturais remontam aos tempos dos incas. Plantam milho e batata, criam lhamas e vicunhas, pescam, mascam coca, têm no lago Titicaca uma embarcação muito peculiar, feita com um junco da região. Sua religião sacraliza a natureza, de modo que vêem montanhas e rios como providos de espírito. No Paraguai restou alguma influência dos guaranis do Chaco, especialmente no idioma, falado por ampla parcela da população do país. Há ali até publicações e textos literários em guarani.

     

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