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:: Segunda-feira, 28 de Julho de 2014 ::
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    As Migrações Animais

    As migrações animais são os deslocamentos realizados, periodicamente ou não, em limites de espaço e tempo significativos em relação ao tamanho e à duração da vida da espécie. Excluem-se, portanto, os movimentos como o do plâncton animal, para cima e para baixo, que representam simples taxias sob influência da luz solar (fototaxia negativa, no caso), assim como os que se fazem na busca cotidiana de abrigo. Alguns autores só reconhecem a migração quando existe periodicidade regular, como, por exemplo, quando ocorre todos os anos.

    São conhecidas as migrações sazonais determinadas pela modificação das condições alimentares ou climáticas. Servem de exemplo os deslocamentos de alguns invertebrados, especialmente artrópodes, em intervalos de tempo relativamente curtos, quando chega o inverno. Os animais que habitam regiões descampadas refugiam-se na floresta, ao surgir o frio do outono, mas procuram um extrato de vegetação semelhante àquele em que normalmente vivem.

    As migrações ligadas à reprodução não se confundem com os deslocamentos sazonais. Peixes marinhos, como o arenque, procuram águas menos profundas, nas proximidades da costa, para a postura. Focas, pingüins e tartarugas do mar buscam terra firme e aí permanecem durante o período da reprodução. Algumas espécies terrestres, como os caranguejos dos coqueiros (Birgus latro), vão da terra para o mar.

    Nas migrações entre mar e rios, distinguem-se as espécies anadrômicas, que sobem a correnteza, das catadrômicas, que a descem. Podem-se observar migrações com periodicidade inferior a um ano, como as de muitas espécies de gafanhotos das regiões quentes, que formam enxames migradores mais ou menos regularmente. Existem migrações sem retorno, como a dos lemingues (Lemmus lemmus). As migrações erráticas, características de muitas aves, podem cobrir grandes distâncias, somente interrompidas no período da postura. Às vezes, essas migrações, que provavelmente estão ligadas à alimentação, coincidem com certa estação do ano. Entre os grandes mamíferos, como tigres e lobos, também se verificam migrações erráticas.

    Consideram-se migrações, embora não típicas, os deslocamentos dos limites de distribuição de uma população. Esses deslocamentos se processam de forma mais lenta que as migrações propriamente ditas e em geral se relacionam a alterações recentes do clima. Espécies que durante muito tempo permaneceram dentro de certos limites territoriais repentinamente ultrapassam esses limites e entram em território ainda não colonizado. Exemplo típico é o da rola Streptopelia decaocto, cujos limites ao norte da península balcânica começaram a estender-se para o noroeste da Europa na década de 1940 e atingiram os Países Baixos em 1950.

    Os peixes migradores enquadram-se em duas categorias: (1) os que se deslocam sem mudar de ambiente, como o arenque, a anchova, o bacalhau e o salmão (exemplo mais típico); e (2) os que alternadamente se deslocam da água doce para a salgada e vice-versa, como as enguias e robalos. O dourado é peixe de água doce que, no tempo da desova, sobe às cabeceiras dos afluentes e se detém junto aos grandes saltos para, antes de vencer o obstáculo, irromper violentamente das águas e atingir vários metros de altura num só pulo.

    Os salmões do Atlântico abandonam as águas do mar e procuram os rios para desovar. Sobem até as cabeceiras, onde se dá a postura, a fecundação e o nascimento dos filhotes (alevinos). Estes, ao atingirem certo grau de desenvolvimento, descem o rio em direção ao mar, enquanto os pais permanecem nas cabeceiras. Fato singular, os salmões migram em direção a seu rio natal. Acredita-se que, beirando o litoral, chegam ao lugar em que desemboca esse rio, atraídos quimiotacticamente por minúsculas partículas. Se tem obstruídas as fossas nasais, o salmão não reconhece as águas pátrias. As enguias comportam-se de maneira oposta: vivem nas águas salobras ou doces da Europa e da África, que em certo momento abandonam em busca do mar de Sargaço. Essa migração abrange a maior parte da vida larvária desses peixes.

    As aves são os mais conhecidos viajantes do reino animal, embora nem sempre visíveis, pois em geral se deslocam durante a noite. Com o estudo sistemático das migrações das aves, que inclui o registro dos locais de partida e pouso, descobriu-se que, todos os outonos, bandos de tarambolas-douradas (Charadrius pluvialis) se reúnem no litoral do Alasca, vindas das tundras dessa região. Sobrevoam o estreito de Bering e as Aleutas, e dirigem-se então para o Havaí, mais de dois mil quilômetros ao sul. Não menos interessante é o grande circuito percorrido pelas tarambolas-douradas que se reproduzem no Ártico canadense. Elas sobrevoam o mar de Labrador, a leste do Canadá, e voltam-se para o sul, por sobre o Atlântico, em direção à América do Sul. Na primavera, retornam por via totalmente diversa, pela América Central e o vale do Mississippi, viajando, no total, mais de quarenta mil quilômetros.

    Nos casos mais simples, a ave realiza deslocamentos anuais no interior da mesma zona climática. Os dois extremos de seu trajeto ficam em latitudes vizinhas, de clima semelhante. Observa-se que, em muitos desses casos, o que a ave procura é uma formação vegetal diferente. Mais freqüentes, porém, são as migrações associadas a mudança de clima, que se dão, geralmente, no sentido norte-sul. Quando ocorrem êxodos em massa, as aves têm de encontrar, nos lugares distantes, condições de alimentação favoráveis às quais possam adaptar-se e que sejam suficientes para atender a toda a população que se desloca. Além disso, não pode haver competição muito acirrada da fauna local.

    Ao vôo das aves pode-se comparar o das borboletas Danais plexippus, que surgem na primavera, no norte dos Estados Unidos e sul do Canadá, onde se reproduzem. No outono, reúnem-se em grandes bandos que emigram para o sul e passam o inverno nos Estados Unidos, perto do golfo do México. Na maioria dos outros lepidópteros migradores, só a geração seguinte retorna aos locais de origem.

    Alguns especialistas acreditam que o elemento deflagrador da migração, seja ela longa ou curta, é sempre direta ou indiretamente alimentar. Se o animal vive em região bem provida, torna-se sedentário, mas se falta alimento, empreende a migração. Outros argumentam, porém, que não se pode atribuir a migração a um único fator, seja ele a alimentação, a redução do número das horas de luz no dia etc. Mais provável é a existência de uma combinação de fatores externos (como alimentação e temperatura) e internos (como os ritmos de metabolismo) que em conjunto determinariam a inquietação migradora. Mudanças hormonais são observáveis nesses períodos e a inquietação se dá mesmo em animais em cativeiro, bem protegidos e alimentados. Peixes de aquário se comportam de modo semelhante. Por manipulação fotoperiódica é possível mesmo induzir a inquietação.

    A orientação dos animais na migração se dá, aparentemente, por referenciais diversos: algumas aves migradoras utilizam reparos visuais, mas outras podem dispensá-los. Mantêm-se orientadas pelas estrelas ou, como indicam estudos mais recentes, pelo campo magnético terrestre, o que ainda é objeto de debate.

    A utilização do Sol como bússola por certas espécies migradoras é fato experimentalmente comprovado. A capacidade de orientar-se pela luz solar pressupõe um relógio interno exato, para acertar o tempo nos grandes percursos. As abelhas, por exemplo, se orientam pela bússola solar. Muito curiosa, também, é a orientação do saltão-da-praia, ou pulga-do-mar (Talitrus saltador), crustáceo que vive nas imediações da linha de maré. Quando deslocado para a terra, ele corre para o mar usando por bússola o Sol. À noite, orienta-se pela Lua.

    Algumas aves de migração noturna seguem as estrelas e se desorientam quando o céu está nublado. Se postas experimentalmente num planetário, são capazes de manter a orientação. Parece certo que o luar, nesses casos, perturba a orientação.

    Bem mais complexo é o problema da verdadeira navegação, isto é, a capacidade que alguns animais apresentam de reencontrar um ponto de partida situado em lugar desconhecido para eles. Supõe-se que os pombos-correios, por exemplo, encontrem o lugar de onde foram soltos por algum mecanismo de comparação geográfica desse ponto com o pombal onde vivem. É de se supor também que a navegação tenha por bússola o Sol.

    É frequente que os animais utilizem mais de um mecanismo de orientação. O salmão pode valer-se da bússola solar, além dos estímulos quimiotácticos da corrente. As larvas de enguias chegam aos estuários dos rios com a maré montante, e, quando a maré baixa, vão para o fundo, evitando serem varridas de novo para o mar. Como são capazes de reagir ao cheiro de certas substâncias específicas das águas do rio, aguardam no fundo até que o olfato lhes indique o momento de emergir e retornar ao mar.

     

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