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    A Gramática

    O conhecimento da gramática e o domínio da língua são fenômenos independentes, como prova o fato de só em 1536 ter surgido a primeira gramática da língua portuguesa, quando os portugueses já tinham séculos de brilhante tradição literária em prosa e verso.

    Em sentido estrito, gramática é a parte da lingüística - entendida esta como a ciência da linguagem em geral - que se ocupa da morfologia e da sintaxe. A morfologia se refere ao estudo da palavra isolada: elementos que a compõem, classe a que pertence (substantivos, verbos, advérbios etc.), diferentes formas que pode adotar etc. A sintaxe estuda as relações que se estabelecem entre as palavras de uma língua. Essas disciplinas se entrelaçam e complementam mutuamente. Assim, a análise morfológica trata a palavra em si, sua classe, flexão, elementos mórficos, grafia, terminação etc. A análise sintática aborda a palavra em relação às outras que se acham na mesma oração. Enquanto a morfologia estuda a palavra, a sintaxe estuda a frase.

    As unidades mínimas dotadas de significação são os morfemas, que podem ou não coincidir com uma palavra. A preposição de consta de um só morfema; já na palavra canto (do verbo cantar) distinguem-se duas unidades significativas: cant-, que dá o significado, e -o, que indica a primeira pessoa do presente do modo indicativo. O que caracteriza o morfema é o significado que exprime. Por isso, significantes diversos que exprimem um mesmo significado são variantes, ou alomorfes, nome que se dá às variantes morfológicas de um mesmo signo. Assim, o morfema que indica o plural pode apresentar-se sob a forma dos alomorfes -s, -es, ou zero: os livro-s, os par-es, os lápis (lápis escreve-se da mesma forma no singular e no plural). Diz-se que estão em distribuição complementar porque não são intercambiáveis para um mesmo caso: não são possíveis as formas pars ou lápises.

    Sintagmas são grupos de palavras que formam uma unidade no nível da análise gramatical. A frase "os garotos estavam comendo as maçãs", por exemplo, pode se decompor inicialmente em dois sintagmas: "os garotos" - "estavam comendo as maçãs". Este último pode também se decompor em outros dois: "estavam comendo" e "as maçãs". Os sintagmas formam orações. Oração é a unidade que constitui um enunciado completo, isto é, serve para expressar uma ação: declarar, ordenar, interrogar etc. Da perspectiva da análise gramatical, define-se como forma lingüística independente, não incluída em outra forma lingüística maior. As orações compõem-se de sintagmas, os sintagmas de palavras e as palavras de morfemas. Essas são as unidades da análise gramatical, que em alguns casos podem coincidir na mesma forma. Por exemplo, uma resposta como "É" constitui, ao mesmo tempo, oração, sintagma, palavra e morfema. As orações formam a frase, mas pode haver uma frase de uma só oração, quando apresenta uma única forma verbal, clara ou oculta.

    As palavras comportam diferentes classificações. Tradicionalmente se agrupam sob as noções de substantivo, advérbio, verbo, adjetivo etc., que são as classes gramaticais primárias ou partes do discurso. Elas podem ser definidas de duas maneiras: segundo critérios funcionais, quer dizer, de acordo com as funções que podem desempenhar na oração; ou segundo critérios formais, determinados pela possibilidade de apresentar formas distintas para indicar número, pessoa, gênero etc. Tais acidentes são denominados categorias gramaticais secundárias, que variam muito de uma língua para outra mas podem tornar-se muito úteis para definir as partes do discurso, quando a língua em questão possui uma morfologia rica. Em português, as categorias número e gênero se aplicam aos substantivos; número, gênero e grau, aos adjetivos; número, pessoa, tempo, modo e voz, aos verbos; número, gênero, pessoa e caso, aos pronomes pessoais. Advérbios, preposições e conjunções são partes invariáveis da oração e para defini-las é preciso recorrer necessariamente a critérios sintáticos.

    As noções de sujeito, predicado etc. constituem as categorias funcionais, ou categorias gramaticais primárias, que definem os diferentes papéis desempenhados pelas palavras numa oração. As orações podem expressar uma ação, um processo, uma situação ou um estado, geralmente explicitados pelo verbo. Cada verbo exige certo número de elementos para definir a predicação. Os verbos impessoais, tais como chover e amanhecer, podem ocorrer isoladamente. Outros, por exemplo atribuir, exigem, na maioria dos casos, o acompanhamento de um mínimo de três sintagmas.

    A palavra exerce, em geral, duas funções na frase: uma semântica e outra sintática. A primeira diz respeito ao significado da palavra e a segunda se refere ao papel que ela exerce em relação aos outros termos da oração. São termos essenciais da oração o sujeito e o predicado. Sujeito é o termo sobre o qual se faz uma declaração e predicado é tudo o que se diz do sujeito. Nem sempre o sujeito e o predicado estão expressos; quando um ou outro não aparece expressamente na oração, denomina-se elíptico. Se o sujeito não está materialmente expresso mas pode ser identificado, chama-se sujeito oculto. A identificação do sujeito oculto pode ser feita pela desinência verbal, como na frase "Chego sempre cedo", em que a desinência -o indica claramente tratar-se do pronome eu; ou pela presença do sujeito em outra oração, como no seguinte período: "O jardineiro plantou as flores. Agora vai regá-las", em que o sujeito de regá-las é evidentemente o jardineiro. Outras vezes o verbo não se refere a uma pessoa determinada, e nesse caso diz-se que o sujeito é indeterminado, como na frase: "Não me disseram nada."

    Enfoques da gramática. Uma antiga tradição outorgava à gramática uma faculdade normativa, ou seja, de indicar os usos lingüísticos corretos ou incorretos. Essa noção surgiu entre os alexandrinos, cultores dos estudos gramaticais na antiguidade, cujos trabalhos filológicos basearam-se nos textos dos grandes escritores do passado. Tal concepção da gramática se fundamentava em dois pressupostos: a primazia da língua escrita sobre a falada e a suposição segundo a qual a língua alcança seu maior grau de perfeição no uso dos grandes clássicos, surgidos no apogeu de uma literatura. Dada a admiração que sempre se sentiu na Europa pelos clássicos da antiguidade, as gramáticas das línguas modernas assimilaram critérios que, em muitos casos, só são aplicáveis ao latim.

    A gramática lógica, ou "racional", desenvolveu-se principalmente na abadia de Port-Royal, França, no século XVII, e seu princípio fundamental afirma que todas as categorias gramaticais de uma língua têm fundamento em princípios lógicos. Esses dois traços, a decisão de fundamentar as categorias da língua sobre critérios lógicos e o caráter prescritivo baseado na língua literária, foram as características mais peculiares daquilo que se conhece por gramática tradicional, que manteve a vigência mesmo depois da adoção de conceitos diversos.

    A gramática descritiva, em oposição à normativa, pretende descrever o funcionamento interno da língua sem se guiar por pressupostos acerca do que seja ou não correto. Essa concepção da gramática caracteriza a lingüística moderna. A gramática comparada, surgida no século XIX graças ao trabalho dos pesquisadores da família lingüística indo-européia, estuda duas ou mais línguas comparando-as entre si. Aplica-se principalmente quando as línguas têm algum parentesco, a fim de rastrear as diferentes evoluções a partir de uma origem comum.

    Desde o século XIX estabeleceu-se uma distinção muito clara entre a gramática diacrônica e a sincrônica, embora sua formulação explícita só viesse a ser feita no princípio do século XX. A gramática diacrônica, ou histórica, ocupa-se de investigar a evolução experimentada por uma língua no transcurso do tempo, enquanto que a sincrônica se dedica ao estado de uma língua numa época determinada, sem atenção à origem dos fatos gramaticais estudados.

    A gramática estrutural teve como precursor o mesmo Saussure, com a publicação de Cours de linguistique générale (1916; Curso de lingüística geral), texto que reúne suas idéias sobre a linguagem. O que se conhece por estruturalismo lingüístico é na realidade um conjunto muito heterogêneo de tendências e escolas. Como elemento comum a todas elas, cabe assinalar alguns dos princípios formulados por Saussure: conceder prioridade ao estudo da língua falada; considerar a lingüística como uma ciência descritiva e não normativa; incluir na pesquisa lingüística todas as línguas, e não apenas aquelas com importante tradição cultural, fato que levou a desprezar muitas das categorias gramaticais tradicionais baseadas nas línguas européias; outorgar prioridade à descrição sincrônica; e estudar a linguagem considerada em sua estrutura.

    Os dois últimos pontos essenciais foram resumidos pelo próprio Saussure na definição: "A língua é um sistema em que todas as partes podem e devem ser consideradas em sua solidariedade sincrônica." Cada língua é entendida, pois, como um sistema de relações - ou um conjunto de sistemas relacionados - cujos elementos carecem de validez fora das relações de equivalência e contraste que mantêm entre si. Os progressos mais notáveis obtidos pelo estruturalismo produziram-se no campo da morfologia e, graças em boa parte à escola de Praga, da fonologia - que não está compreendida na gramática. Os maiores progressos no estudo da sintaxe, de uma perspectiva estruturalista, deveu-se à escola distributivista americana, que teve Zellig Harris como expoente máximo.

    A gramática gerativo-transformacional, exerceu grande influência na renovação das teorias lingüísticas. Essa gramática é entendida como um sistema de regras de dois tipos: gerativas e transformacionais. As primeiras geram a estrutura profunda das orações de uma língua, à qual proporcionam uma categorização sintática precisa, que torna possível interpretar o significado. As regras transformacionais convertem essa estrutura subjacente na chamada estrutura superficial, que é a forma sob a qual se apresentam as orações, forma essa suscetível de interpretação fônica. Exemplo típico de transformação é a que converte uma oração ativa em passiva. Entende-se que, mediante a aplicação das regras gerativas e transformacionais da gramática de determinada língua, é possível produzir todas as possíveis orações gramaticais da língua em questão. O domínio dessas regras pelo falante de uma língua seria sua competência lingüística. A gramática gerativo-transformacional tem como objetivo elaborar um modelo hipotético sobre a competência assim entendida, o qual, ao gerar todas as orações gramaticais, proporcionaria a descrição estrutural de uma língua.

    As correntes lingüísticas pragmáticas surgidas a partir da década de 1970 concederam atenção secundária à gramática, pois consideram mais importante que a gramática em si as relações que se estabelecem entre os fatos lingüísticos e os contextos extralingüísticos em que se manifestam, pois são os que determinam a significação de um enunciado. Todas as concepções rejeitam a gramática como modelo fechado. Como versa sobre a língua, acha-se submetida a uma evolução análoga à desta. Sua própria concepção se acha estreitamente vinculada às concepções ideológicas predominantes nos diferentes momentos históricos.

     

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